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Saúde • 14:20h • 31 de janeiro de 2026

Vacina contra o HPV previne cânceres e enfrenta mitos que ainda afastam adolescentes da imunização

Desvende 8 mitos sobre o imunizante

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações do CFF | Foto: Arquivo Âncora1

A vacinação contra o HPV é a forma mais eficaz de prevenção por ajudar a reduzir o risco de contágio, segundo o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A vacinação contra o HPV é a forma mais eficaz de prevenção por ajudar a reduzir o risco de contágio, segundo o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O HPV (Papilomavírus Humano) é um grupo de mais de 200 tipos de vírus, responsável por causar a infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo. Alguns destes vírus podem provocar verrugas genitais, outros afetam a pele e as mucosas, enquanto os mais agressivos estão associados a diversos tipos de câncer, como o de colo do útero, ânus, pênis, boca e garganta.

A vacinação contra o HPV é a forma mais eficaz de prevenção por ajudar a reduzir o risco de contágio, segundo o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar disso, uma série de falsidades relacionadas ao imunizante continuam circulando em conversas e nas redes sociais. A consequência disso é que a taxa de vacinação no Brasil ainda não alcançou a meta de 95% de cobertura, embora tenha tido um aumento importante em 2024 – para 82% de cobertura global, ante 78,5% em 2022, segundo o Ministério da Saúde.

“A vacina contra o HPV funciona exatamente como usar um capacete: ninguém espera sofrer um acidente para colocá-lo; o capacete só protege quem o utiliza antes de subir na moto ou na bicicleta. Com a vacina, a lógica é exatamente a mesma”, afirma o pediatra e gestor médico de Desenvolvimento Clínico do Butantan, Mário Bochembuzio.

Para garantir a eficácia da proteção, ele esclarece que “a vacina deve ser aplicada na faixa etária dos 9 aos 14 anos, quando o sistema imunológico responde melhor e antes do início da vida sexual, que é quando o risco real de exposição ao vírus começa”.

A grande questão é: se essa proteção é tão eficaz e oferecida gratuitamente pelo SUS, por que tantas pessoas ainda deixam de se vacinar?

Isso ocorre, em grande parte, por causa de um mito perigoso de que a vacina 'antecipa' o início da vida sexual dos adolescentes. “O foco da vacina é justamente o oposto: é uma ferramenta de prevenção para proteger contra doenças graves, como o câncer, e ela funciona se for usada antes da exposição ao risco, ou seja, antes do início da vida sexual”, ressalta o pediatra.

No Brasil, a vacina contra o HPV é recomendada para a faixa etária de 9 a 14 anos. Em 2025, ela passou a ser oferecida em dose única também para jovens de 15 a 19 anos, em uma campanha que deve ir até dezembro deste ano. O grupo prioritário também inclui imunossuprimidos, vítimas de violência sexual e pessoas com outras condições específicas, conforme disposição do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Esse público pode receber a vacina até os 45 anos, em um esquema de três doses.

Apesar de seu caráter preventivo, há outros tantos boatos acerca da vacina contra o HPV. O Portal do Butantan consultou o gestor médico Mário Bochembuzio para desmenti-los.

1. A vacina é uma experiência genética que muda o DNA.

FALSO. A vacina não tem nenhum poder de alterar o nosso DNA. Ela é feita a partir de partículas semelhantes ao vírus (VLP, do inglês virus like particles). Baseada em engenharia genética, a tecnologia consiste em desenvolver uma molécula contendo a principal proteína da superfície do vírus, a L1, mas sem o DNA viral que normalmente fica dentro do vírus. A partícula criada em laboratório “imita” a estrutura do vírus, fazendo o sistema imune acreditar que ela é uma ameaça e tomar medidas para combatê-la. Por não conter o material genético do patógeno, a estratégia é considerada extremamente segura e sem risco de causar infecção. Em resumo: a vacina não entra no núcleo das nossas células, que é onde o DNA fica guardado.

2. A vacina contra o HPV causa a Síndrome de Guillén Barré (SGB).

FALSO. O Comitê Consultivo Global para Segurança de Vacinas (GACVS, na sigla em inglês), da OMS, analisou uma revisão abrangente da literatura científica e concluiu que não há associação direta entre a vacina contra o HPV e a Síndrome de Guillén Barré.

Entre as pesquisas avaliadas estão estudos de coorte populacional da Dinamarca e da Suécia; uma publicação online da França que sugeria um risco aumentado da síndrome em pessoas vacinadas; e um grande estudo de série de casos autocontrolado no Reino Unido, com base em uma população onde 10,4 milhões de pessoas receberam a vacina. Esta pesquisa não encontrou aumento significativo no risco de SGB após qualquer dose da vacina em nenhum dos vários períodos de risco avaliados ou para qualquer marca de imunizante.

A SGB foi especificamente selecionada como um desfecho em estudos dos Estados Unidos que usaram o Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas (VAERS, na sigla em inglês) e o Vaccine Safety Datalink (VSD). O GACVS recebeu novos dados do VAERS após a distribuição de 60 milhões de doses e os dados do VSD com mais de 2,7 milhões de doses administradas até o final de 2015. Na análise atualizada, não foi identificada nenhuma associação entre a vacina contra o HPV e a SGB. A conclusão do GACVS após analisar os estudos do Reino Unido e dos EUA foi de que o risco de >1 caso de SGB por milhão de doses de vacina, que antes havia sido sugerido, pode hoje ser excluído.

3. A vacina contra o HPV causa mais danos do que benefícios.

FALSO. Os benefícios da vacina são imensamente maiores do que qualquer risco. Os efeitos colaterais mais comuns são leves, como dor no local da aplicação. O benefício é a proteção contra cânceres que matam milhares de pessoas.

4. Só pega HPV quem tem muitos parceiros, então não preciso da vacina.

FALSO. Qualquer pessoa que tenha ou venha a ter contato íntimo com outra pode pegar o HPV, mesmo que seja com um único parceiro ou parceira. O vírus é muito comum e fácil de ser transmitido.

5. Como HPV não tem cura, não adianta tomar a vacina.

FALSO. É justamente por não existir um remédio que combata diretamente o vírus que a vacina é tão importante. Ela impede que a pessoa seja infectada transmita a doença para outras. Segundo dados da Organização Panamericana da Saúde (OPAS), a vacinação de mulheres adolescentes contra o HPV pode prevenir cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero.

6. Quem já foi infectado com o HPV não precisa da vacina.

FALSO. Mesmo quem já teve contato com um tipo de HPV pode se beneficiar da vacina. Existem muitos tipos diferentes de HPV, e a vacina protege contra os principais que causam câncer. O Programa Nacional de Imunizações foca no público mais jovem por se tratar de uma recomendação da OMS, e por ser um programa focado em estratégias de imunização coletiva, não individual.

7. Estou fora do público-alvo, portanto não preciso tomar.

DEPENDE. O Ministério da Saúde oferece a vacina gratuitamente para a faixa etária com a melhor resposta e com a indicação preconizada pela OMS. No entanto, pessoas mais velhas também podem se beneficiar. Se você está fora da idade indicada no calendário de vacinação nacional do PNI, pode conversar com um médico para averiguar se é o caso de procurar a vacina em clínicas particulares.

8. A vacina foi suspensa no Japão, então não devo tomar.

A HISTÓRIA NÃO É BEM ASSIM. O Japão nunca suspendeu a vacina. O que aconteceu foi que o governo parou de recomendá-la ativamente até investigar as causas da desinformação acerca da vacina, que também atingiu o país. Após as taxas de câncer começarem a subir e os boatos serem desmentidos, o governo japonês voltou a recomendar ativamente a vacina em 2022.

Um estudo publicado em 2020 na revista BMC Infectious Diseases por cientistas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC, na sigla em inglês), um braço de estudos de oncologia da OMS, relatou que mulheres jovens vacinadas contra o HPV apresentaram um risco significativamente menor de desenvolver lesões pré-cancerosas cervicais em comparação com um grupo não vacinado. A eficácia da vacina contra lesões de grau 2 ou superior foi de 76%, e a eficácia contra lesões de grau 3 ou superior foi de 91%, em comparação com mulheres não vacinadas da mesma idade.

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