Ciência e Tecnologia • 18:51h • 15 de março de 2026
Vacina brasileira contra cocaína e crack avança e pode iniciar testes em humanos
Projeto da UFMG chamado Calixcoca busca bloquear efeito da droga no cérebro e pode inaugurar novo caminho no tratamento da dependência química
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da CFF | Foto: Divulgação
Um projeto científico desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pode representar um avanço importante no tratamento da dependência de cocaína e crack. A vacina experimental Calixcoca está sendo estudada como uma abordagem inédita para combater quimicamente o vício em drogas, utilizando o próprio sistema imunológico do paciente para impedir que a substância produza efeitos no cérebro.
A pesquisa foi iniciada em 2015 pelo professor Frederico Garcia, da Faculdade de Medicina da UFMG, e reúne uma equipe multidisciplinar de especialistas de diferentes áreas.
Atualmente, não existem medicamentos oficialmente registrados por agências regulatórias para o tratamento específico da dependência de cocaína e crack. As abordagens disponíveis se concentram principalmente em terapias comportamentais e em medicamentos que auxiliam no controle de sintomas relacionados à abstinência ou à impulsividade. Esse cenário torna o desenvolvimento da Calixcoca particularmente relevante para a saúde pública.
Resultados iniciais indicam segurança em testes com animais
Os estudos pré-clínicos já foram concluídos e demonstraram segurança e eficácia em testes com animais, etapa fundamental antes da autorização para estudos em humanos. O projeto agora avança para uma fase decisiva, que envolve a preparação da documentação necessária para solicitar autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a realização da fase 1 dos testes clínicos.
Essa primeira etapa em humanos tem como objetivo principal avaliar possíveis efeitos colaterais do imunizante e confirmar sua segurança em voluntários. Segundo os pesquisadores, os primeiros testes podem começar dentro de até dois anos, dependendo da aprovação regulatória e da conclusão das etapas preparatórias.
Caso os resultados sejam positivos nas fases clínicas seguintes, a expectativa é que o produto possa evoluir para um tratamento definitivo nos próximos anos.
Vacina brasileira contra cocaína e crack avança e pode iniciar testes em humanos
Como funciona a vacina contra a droga
O mecanismo de ação da Calixcoca representa uma inovação científica significativa. Em vez de agir diretamente no cérebro, o imunizante estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos que se ligam às moléculas de cocaína presentes na corrente sanguínea.
Quando isso acontece, a droga se transforma em uma molécula maior, incapaz de atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que regula a passagem de substâncias entre o sangue e o sistema nervoso central. Dessa forma, a cocaína não consegue atingir o cérebro nem produzir seus efeitos psicoativos.
Esse bloqueio químico reduz o efeito da droga no organismo e pode ajudar pacientes em tratamento a evitar recaídas durante o processo de recuperação.
Ferramenta para reduzir recaídas
Segundo o professor Frederico Garcia, os resultados obtidos até agora indicam que a vacina tem potencial para reduzir os efeitos da droga no organismo. Isso pode oferecer uma ferramenta adicional para pacientes que já estão em tratamento e buscam manter a abstinência.
A proposta do imunizante não é substituir terapias psicológicas ou programas de reabilitação, mas atuar como um recurso complementar capaz de aumentar as chances de recuperação e facilitar a reinserção social de pessoas em tratamento. A estratégia pode dar mais tempo para que pacientes reconstruam suas rotinas e relações sociais sem a influência química da droga.
Financiamento e reconhecimento internacional
O desenvolvimento da vacina conta com apoio institucional significativo. Em 2023, a UFMG e o Governo de Minas Gerais firmaram um acordo que garantiu R$ 10 milhões em recursos para a continuidade da pesquisa. O financiamento foi viabilizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde.
Além do apoio financeiro nacional, o projeto também recebeu reconhecimento internacional. A pesquisa conquistou o Prêmio Euro Inovação na Saúde, na categoria Inovação Tecnológica Aplicada à Saúde. A premiação concedeu 500 mil euros, valor equivalente a cerca de R$ 2,6 milhões, que serão destinados exclusivamente ao avanço do desenvolvimento científico da vacina.
Se os testes clínicos confirmarem os resultados observados nas fases iniciais, a Calixcoca poderá representar uma das primeiras estratégias farmacológicas eficazes para o tratamento da dependência de cocaína e crack, um desafio histórico para a medicina e para as políticas de saúde pública em diversos países.
Participantes do projeto
Participam do projeto as professoras Maila de Castro, da Medicina, e Gisele Goulart, da Farmácia, além do professor Ângelo de Fátima, do Instituto de Ciências Exatas. Também integram o grupo os pesquisadores Paulo Sérgio de Almeida, Raissa Pereira, Sordaini Caligiorne, Brian Sabato, Bruna Assis, Larissa do Espírito Santo e Karine Reis, vinculados ao Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde (NAVeS). A Fundep, Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa, também participa do projeto auxiliando na viabilização dos processos de pesquisa.
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