Saúde • 10:00h • 26 de maio de 2026
Uso de cigarros eletrônicos cresce entre jovens; veja riscos e tratamentos
Especialistas da USP comentam sobre o consumo desses dispositivos entre jovens, formas dos pais perceberem a utilização e maneiras de tratamento
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
Pesquisa do IBGE mostra aumento expressivo no número de adolescentes que já experimentaram cigarros eletrônicos. Médicos e pesquisadores alertam para os riscos à saúde física e mental, o alto poder de dependência dos dispositivos e os desafios no tratamento.
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 (PeNSE 2024), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revelou que cerca de 29,6% dos estudantes entre 13 e 17 anos já experimentaram cigarro eletrônico. Os dispositivos, conhecidos também como vape, pod ou vaporizador, têm venda, fabricação, importação e propaganda proibidas no Brasil desde 2009, por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Na edição anterior da pesquisa, em 2019, o índice era de 16,8%, o que representa um aumento de mais de 10 pontos percentuais em cinco anos. Para especialistas, o crescimento reflete uma falsa sensação de segurança criada em torno desses produtos.
Segundo Jaqueline Scholz, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, os cigarros eletrônicos foram apresentados ao público como alternativas menos nocivas ao cigarro tradicional.
Ela afirma que a indústria criou uma “fantasia de segurança”, vendendo os dispositivos como produtos recreativos e aparentemente sem riscos, especialmente para os jovens.
Produtos atraem adolescentes e aumentam dependência
Os especialistas alertam que os cigarros eletrônicos podem conter níveis ainda maiores de nicotina do que os cigarros convencionais. Além disso, os dispositivos podem reunir milhares de substâncias químicas, incluindo metais pesados como cobre e níquel, aumentando o potencial de dependência.
Outro fator de preocupação é a estratégia de marketing. Os aparelhos costumam ter design moderno, cores chamativas, aromas doces e sabores frutados, elementos que ajudam a atrair adolescentes e mascaram os riscos do consumo.
De acordo com Jaqueline Scholz, a combinação entre aparência tecnológica, aromas agradáveis e ausência de fumaça intensa faz com que muitos jovens enxerguem o vape como algo inofensivo.
A especialista lembra que países que inicialmente incentivaram o uso dos dispositivos como substitutos do cigarro tradicional passaram a rever suas políticas após o aumento do consumo entre adolescentes. O Reino Unido, por exemplo, aprovou em 2026 uma lei que proíbe permanentemente a venda de cigarros para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009.
Pesquisadores destacam ainda que a nicotina atua diretamente no sistema nervoso central, estimulando a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer. Esse mecanismo é o principal responsável pela dependência química.
Segundo o pesquisador Henrique Bombana, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, o efeito da nicotina é rápido, mas dura pouco tempo. Isso faz com que o usuário queira consumir novamente o produto em intervalos cada vez menores.
Além dos impactos cardiovasculares, como aumento do risco de infarto, AVC e hipertensão, especialistas apontam efeitos importantes na saúde mental. O consumo frequente está associado a maiores índices de ansiedade e depressão, principalmente entre adolescentes, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento.
Mudanças de comportamento, isolamento, perda de interesse em esportes e alterações emocionais podem ser sinais de uso frequente dos dispositivos.
Para os especialistas, o diálogo entre pais e filhos é essencial para identificar precocemente o problema e evitar que o uso ocasional evolua para dependência.
O tratamento para parar de fumar cigarros eletrônicos segue estratégias semelhantes às utilizadas no combate ao tabagismo convencional. Entre elas estão acompanhamento psicológico, controle da abstinência com medicamentos e técnicas comportamentais para reduzir os gatilhos associados ao consumo.
Uma das estratégias utilizadas é o chamado “fumar restrito”, em que a pessoa passa a usar o produto de forma consciente e isolada, reduzindo comportamentos automáticos ligados ao vício e diminuindo gradualmente o consumo.
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