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Responsabilidade Social • 14:17h • 01 de fevereiro de 2026

Universo trans em números: trabalho, direitos e segurança

Especial traz um resumo dos dados sobre mercado de trabalho, quais os direitos e os números da violência no país que continua sendo o que mais mata pessoas trans no mundo

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações da CUT | Foto: Arquivo Âncora1

No Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, o Brasil volta a encarar uma de suas contradições mais profundas.
No Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, o Brasil volta a encarar uma de suas contradições mais profundas.

Apesar da ausência de um censo oficial específico sobre a população LGBTQIA+, especialmente sobre pessoas trans, diferentes pesquisas revelam um cenário alarmante no Brasil. A violência segue em níveis elevados, o acesso ao mercado de trabalho é marcado por profundas desigualdades e direitos básicos continuam sendo frequentemente desrespeitados.

No campo da violência, o Brasil permanece, há quase 18 anos, como o país que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo. Em 2025, foram registrados 80 assassinatos de pessoas trans, número que representa uma queda de 34% em relação a 2024, quando ocorreram 122 mortes. Apesar da redução, o aumento das tentativas de homicídio indica que a violência não diminuiu de forma efetiva. Considerando toda a população LGBT+, uma morte violenta ocorre a cada 34 horas no país.

As principais vítimas são travestis e mulheres trans, majoritariamente jovens entre 18 e 35 anos, negras ou pardas. A Região Nordeste concentrou o maior número de assassinatos em 2025, com 38 registros, seguida pelo Sudeste, com 17. Ceará e Minas Gerais lideraram o ranking estadual naquele ano, com oito mortes cada. No recorte histórico entre 2017 e 2025, São Paulo permanece como o estado com maior número de assassinatos, somando 155 casos.

Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a violência é alimentada por um sistema que naturaliza a exclusão social, o racismo e o abandono institucional. A entidade destaca que os dados existentes são produzidos pela sociedade civil, a partir de notícias e denúncias, já que não há monitoramento oficial por parte do Estado. A subnotificação, a desconfiança nas instituições de segurança e a ausência de políticas públicas específicas contribuem para a manutenção desse cenário. O dossiê da Antra defende medidas concretas para enfrentar a impunidade e a ampliação de políticas de proteção, incluindo a adaptação de ações já existentes para atender também mulheres trans.

No mercado de trabalho, um estudo inédito do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) identificou 38,7 mil pessoas trans, entre 14 e 64 anos, no mercado formal brasileiro, por meio do cruzamento de dados do CPF e da Rais. Desse total, 47,6% realizaram a retificação de nome e gênero entre 2023 e 2025, enquanto 45,8% possuem nome social registrado. A maioria está na faixa etária de 18 a 30 anos e mais da metade vive na Região Sudeste.

Apenas 25% das pessoas trans identificadas possuem emprego formal, índice 6,8 pontos percentuais inferior à média da população geral. A desigualdade é ainda maior entre mulheres trans, cuja taxa de emprego formal é de 20,7%, contra 31,1% entre homens trans. No setor público, a presença é reduzida: apenas 5,5% ocupam vínculos estatutários. Mais da metade das pessoas trans empregadas está concentrada nos setores de comércio, serviços administrativos e alojamento e alimentação.

A defasagem salarial também é expressiva. A renda média das pessoas trans é de R$ 2.707, valor 32% inferior à média nacional. Mesmo entre profissionais com ensino superior completo, a remuneração é 27,6% menor em comparação a pessoas não trans com o mesmo nível de escolaridade. A desigualdade se agrava quando combinada ao fator racial: uma pessoa trans preta recebe, em média, 80% do salário de uma pessoa trans branca e 26% menos do que uma pessoa preta na população geral.

O Ipea ressalta que os dados refletem apenas quem conseguiu retificar nome e gênero nos registros oficiais. Estimativas da Antra indicam que mais de 60% da população trans ainda não realizou esse processo, o que sugere que as condições reais de emprego e renda podem ser ainda mais precárias. O estudo aponta, ainda, barreiras persistentes à contratação e à permanência no mercado de trabalho, mesmo em regiões economicamente mais dinâmicas.

No campo dos direitos, o Brasil garante a retificação de nome e gênero diretamente em cartório, sem exigência de laudos médicos, cirurgias ou autorização judicial, além do uso do nome social em documentos, escolas, universidades, serviços públicos e no sistema eleitoral. No Sistema Único de Saúde (SUS), é assegurado o atendimento integral por meio do Processo Transexualizador. A transfobia e a homofobia são equiparadas ao crime de racismo pelo Supremo Tribunal Federal, e pessoas trans têm direito ao uso de banheiros e espaços de acordo com sua identidade de gênero, bem como à não discriminação no ambiente de trabalho.

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