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Economia • 17:19h • 11 de janeiro de 2026

Uma marca de luxo quase desapareceu na mesa de negociação, e o erro estava no INPI

Caso no mercado de luxo revela que registrar não basta; sem monitoramento contínuo, a marca, principal ativo do negócio, pode desaparecer no pior momento

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Engenharia da Comunicação | Foto: Divulgação

Venda milionária quase naufraga por falha invisível: como a anulação de uma marca expôs riscos silenciosos da propriedade intelectual
Venda milionária quase naufraga por falha invisível: como a anulação de uma marca expôs riscos silenciosos da propriedade intelectual

Uma operação de venda milionária no mercado brasileiro de alto luxo quase foi abortada por um problema que raramente entra no radar dos empresários no dia a dia: a situação real do registro de marca. A descoberta veio tarde demais, durante a due diligence, fase decisiva que antecede a assinatura de contratos e costuma definir se um negócio vai ou não sair do papel.

Ao analisar a documentação da boutique alvo da aquisição, a empresa compradora identificou que o registro da marca, justamente o principal ativo do negócio, havia sido anulado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Sem a titularidade da marca, o valor da empresa despencava e a transação se tornava juridicamente inviável.

O caso tramitou sob segredo de Justiça, mas foi acompanhado pelo escritório Sinnema Barbosa, especializado em assessoria jurídica para empresas e agentes de propriedade intelectual. Segundo as sócias Karen Sinnema e Renata Barbosa, a boutique só tomou conhecimento da anulação quando o processo de venda já estava em estágio avançado, o que elevou o risco de perda total do negócio.

A marca era o negócio

No segmento de alto luxo, a marca não é apenas um nome, mas o próprio valor percebido pelo consumidor, o histórico de reputação e a base de fidelidade construída ao longo de anos. “A marca era o principal ativo da negociação”, resume Renata Barbosa. Sem ela, não havia operação possível.

Diante do cenário crítico, o escritório foi acionado em caráter emergencial para identificar a origem da anulação e avaliar se ainda havia espaço para reação jurídica. Havia. O pedido de anulação tinha sido apresentado por uma empresa de outro segmento, que utilizava o mesmo nome comercial, mas sem qualquer conflito de mercado, concorrência direta ou risco de confusão ao consumidor.

Mesmo assim, o requerimento foi acolhido administrativamente pelo INPI.

O fator surpresa

Um agravante chamou atenção dos especialistas: a marca da boutique correspondia ao nome da fundadora original do negócio, hoje administrado pela segunda geração da família. “Isso criou uma falsa sensação de segurança. A empresa jamais imaginou que poderia sofrer um ataque desse tipo”, explica Karen Sinnema.

O episódio escancara um equívoco comum no meio empresarial: acreditar que o simples registro da marca encerra o assunto. Na prática, a propriedade intelectual exige monitoramento permanente, capaz de identificar pedidos de nulidade, oposições ou tentativas de apropriação antes que se transformem em decisões desfavoráveis.

Monitorar é tão importante quanto registrar

Segundo as advogadas, o acompanhamento de marcas costuma ser delegado a escritórios de propriedade intelectual, muitos dos quais não contam com estrutura jurídica própria. A razão é estrutural: há escassez de profissionais do Direito especializados em PI e manter um departamento jurídico interno eleva significativamente os custos operacionais.

Nesse contexto, cresce o uso de modelos white label, em que escritórios de PI terceirizam a atuação jurídica para bancas especializadas. “O acompanhamento de propriedade intelectual frequentemente exige medidas judiciais rápidas e estratégicas. Ter uma advocacia especializada por trás faz toda a diferença”, explicam.

Foi essa atuação integrada que permitiu construir uma defesa eficaz, reverter a anulação do registro e devolver segurança jurídica à negociação. Com a marca restabelecida, a venda pôde ser concluída.

Um alerta para além do luxo

Embora o caso envolva uma boutique de alto padrão, o alerta é universal. Startups, empresas familiares, indústrias e negócios digitais compartilham a mesma vulnerabilidade: tratar a marca como algo estático, quando, na verdade, ela é um ativo vivo, exposto a disputas constantes.

O episódio deixa uma lição clara para o mercado: registrar é apenas o primeiro passo. Sem acompanhamento contínuo, até empresas sólidas podem ver seu maior patrimônio desaparecer justamente quando ele mais importa.

“Esse foi um caso emblemático”, resume Karen Sinnema. “Mostra que a proteção da marca não termina no protocolo do registro. Ela exige vigilância constante, estratégia jurídica e decisões rápidas. Do contrário, o risco não é teórico, é financeiro.”

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