Saúde • 12:03h • 04 de agosto de 2026
Ultraprocessados na dieta do pai podem afetar o bebê ao nascer
Estudo realizado em Ribeirão Preto reforça a importância de incluir os pais nas orientações de saúde e de planejamento familiar
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
A dieta do pai pode influenciar a saúde e a composição corporal dos filhos antes mesmo da gestação. É o que aponta um estudo realizado com 43 famílias atendidas na rede pública de saúde de Ribeirão Preto (SP). Os pesquisadores observaram que quanto maior o consumo de alimentos ultraprocessados pelos pais, maior foi o peso ao nascer e o acúmulo de gordura na coxa e na região suprailíaca dos bebês. O excesso de peso ao nascer e a maior adiposidade no início da vida estão associados a um risco mais elevado de doenças cardiovasculares e metabólicas na idade adulta.
Segundo Daniela Sartorelli, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora da pesquisa, a alimentação materna costuma receber maior atenção, mas os hábitos alimentares do pai também exercem influência importante sobre a saúde do bebê. O estudo foi publicado na revista Nutrition Research.
A pesquisa é a primeira a demonstrar, em humanos, a associação entre o consumo paterno de alimentos ultraprocessados e a composição corporal dos recém-nascidos. Esses produtos incluem alimentos industrializados formulados com substâncias extraídas de alimentos e aditivos químicos, como refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos e embutidos.
Alimentação antes da concepção pode afetar o bebê
A hipótese das pesquisadoras é que uma dieta rica em ultraprocessados comprometa a qualidade dos espermatozoides antes mesmo da concepção. Segundo Mariana Rinaldi Carvalho, doutoranda da FAPESP e coautora do estudo, esse tipo de alimentação pode provocar um ambiente inflamatório no organismo e alterar a expressão de genes transmitidos ao bebê por meio de mecanismos epigenéticos.
Entre os genes envolvidos está o IGF-II, responsável pelo crescimento fetal e herdado exclusivamente pela linhagem paterna. Estudos anteriores já haviam demonstrado que hábitos alimentares do pai podem modificar esse gene por meio de alterações bioquímicas no esperma, influenciando o desenvolvimento do feto.
A pesquisa integra um projeto maior apoiado pela FAPESP que investiga como a alimentação de pais e mães interfere na saúde dos filhos.
Os resultados também mostraram diferenças entre os efeitos da alimentação paterna e materna. Enquanto o consumo de ultraprocessados pelos pais esteve associado ao maior peso dos bebês ao nascer, a ingestão desses alimentos pelas mães no início da gestação foi relacionada a menor peso, menor estatura e menor circunferência da cabeça dos recém-nascidos. Segundo as pesquisadoras, esse efeito pode estar ligado ao impacto dos ultraprocessados na formação da placenta, que depende de uma oferta adequada de nutrientes.
Peso ao nascer pode refletir a saúde futura
O peso ao nascer é considerado um importante indicador da saúde ao longo da vida. Estudos mostram que tanto o baixo quanto o alto peso ao nascimento podem aumentar o risco de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, problemas cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
Embora o estudo não tenha identificado aumento da gordura corporal total dos bebês, foi observado maior acúmulo de gordura em regiões específicas. Em média, os alimentos ultraprocessados representavam cerca de 30% da ingestão energética dos pais avaliados, principalmente por meio do consumo de embutidos, bebidas açucaradas e biscoitos.
Em pesquisas anteriores, a mesma equipe já havia observado que pais com excesso de peso tendiam a ter filhos com menor peso ao nascer. Agora, os resultados indicam que não apenas o peso corporal, mas também a qualidade da alimentação paterna antes da concepção pode influenciar o desenvolvimento do bebê.
Apesar da amostra reduzida, composta por 43 famílias, os pesquisadores destacam que o estudo abre caminho para novas investigações e reforça a importância de incluir os homens nas orientações sobre planejamento familiar e saúde reprodutiva.
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