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Variedades • 18:10h • 25 de dezembro de 2025

Tabu e medo de julgamento mantêm brasileiros presos a compulsões silenciosas

Tabu, medo de julgamento e culpa fazem com que brasileiros demorem anos para buscar ajuda para compulsões como apostas, pornografia e consumo impulsivo

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Assessoria | Foto: Divulgação

Vergonha ainda impede tratamento de vícios comportamentais e aprofunda sofrimento, alerta psicólogo
Vergonha ainda impede tratamento de vícios comportamentais e aprofunda sofrimento, alerta psicólogo

A vergonha segue como um dos principais obstáculos para o tratamento de vícios comportamentais no Brasil. Em um cenário de crescimento de casos ligados a apostas, compulsão por pornografia, compras impulsivas, jogos digitais e busca excessiva por estímulos de dopamina rápida, milhares de pessoas permanecem em silêncio, adiando por meses ou até anos a procura por ajuda especializada. Especialistas apontam que o tabu transforma essas condições em prisões emocionais silenciosas, agravando quadros que poderiam ser tratados precocemente.

Segundo o psicólogo clínico Leonardo Teixeira, especialista em comportamentos compulsivos, a vergonha cria uma camada adicional de sofrimento. “Nem sempre os pacientes chegam ao consultório porque perderam dinheiro ou tiveram a vida social prejudicada. Muitos chegam porque não suportam mais sentir vergonha. Ela paralisa, e quando paralisa, o problema ganha força”, explica.

Tabu moral dificulta o diagnóstico

Para o especialista, a raiz do problema está na forma como a sociedade encara as compulsões. Comportamentos como apostar em excesso, consumir pornografia de forma compulsiva ou gastar impulsivamente ainda são vistos como falha moral, e não como questão de saúde mental. Esse julgamento social faz com que as pessoas escondam o problema, o que contribui para sua progressão.

“Muita gente cresce ouvindo que apostar é falta de responsabilidade, que pornografia é desvio de caráter ou que compras impulsivas são futilidade. Esse tipo de narrativa empurra o problema para a clandestinidade emocional”, afirma Teixeira.

O silêncio, nesse contexto, reforça um ciclo conhecido por profissionais da saúde mental: recaída, culpa, promessa de mudança e nova recaída. Com o tempo, a sensação de não haver saída se intensifica, acompanhada de isolamento, alterações no sono, mentiras sobre gastos e afastamento social.

Reação da família pode agravar o quadro

A vergonha também interfere na forma como famílias lidam com o problema quando ele se torna visível. Reações baseadas em bronca, irritação ou preconceito tendem a intensificar a culpa e afastar ainda mais a pessoa do tratamento. “Ninguém se abre para quem acusa. Quando há acolhimento, a chance de buscar ajuda aumenta”, observa o psicólogo.

Essa dinâmica familiar, segundo Teixeira, é um dos fatores que mais retardam o diagnóstico e o início do cuidado adequado. O medo de decepcionar pessoas próximas muitas vezes pesa mais do que o próprio sofrimento causado pela compulsão.

Prevenção também é afetada

O tabu não apenas dificulta o tratamento, mas compromete a prevenção. Muitas pessoas evitam buscar informações por receio de se reconhecerem nos sintomas ou de admitir que perderam o controle. “Quando a pessoa aceita que não está conseguindo parar, ela dá o primeiro passo para retomar o controle. A vergonha adia essa consciência”, explica.

Para o especialista, romper o tabu exige retirar o peso moral do debate. Reconhecer que compulsões têm base emocional e neuroquímica, e que se tratam de transtornos passíveis de cuidado, é essencial para ampliar o acesso ao tratamento.

“Vergonha não cura nada. Informação cura. Acolhimento cura. Vício não é sobre caráter, é sobre sofrimento emocional”, resume.

Buscar ajuda é um passo de coragem

Leonardo Teixeira reforça que procurar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem. Psicoterapia especializada, atendimento em CAPS, grupos de apoio, acompanhamento médico e estratégias de prevenção fazem parte das opções disponíveis no sistema de saúde e na rede privada.

Quanto mais cedo o tratamento começa, maiores são as chances de recuperação e de reconstrução da qualidade de vida. “Quando a pessoa finalmente fala sobre o problema, ela percebe que não está sozinha. O tabu existe para ser rompido. E é nesse momento que o tratamento começa de verdade”, conclui.

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