Policial • 19:31h • 24 de agosto de 2026
Seu DNA pode estar onde você nunca esteve e a ciência forense explica como
Transferência indireta, vestígios antigos e misturas genéticas ajudam a explicar por que uma correspondência de DNA, mesmo relevante, precisa ser interpretada junto às demais evidências
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Dampress Assessoria | Foto: Divulgação
Encontrar o DNA de uma pessoa na cena de um crime pode representar uma evidência importante, mas não significa, isoladamente, que ela esteve naquele local durante o delito ou participou do que aconteceu. Com técnicas forenses capazes de detectar quantidades cada vez menores de material genético, entender como o vestígio chegou a determinada superfície tornou-se parte fundamental da investigação.
Pesquisas divulgadas pelo National Institute of Justice (NIJ), dos Estados Unidos, em 2025, analisaram justamente a transferência e a persistência de material biológico. Os estudos ajudam a mostrar por que uma identificação genética pode responder de quem é determinado DNA, mas não necessariamente quando, como ou em quais circunstâncias ele foi depositado.
Segundo Karine Vieira de Castro Quadros, especialista em Ciências Forenses com concentração em Biologia Molecular Forense e perita criminal nos Estados Unidos, a associação entre um perfil genético e uma pessoa precisa ser interpretada em conjunto com o local da coleta, as características do vestígio e os demais elementos reunidos durante a investigação.
DNA pode chegar a um local sem contato direto
Um dos fatores que exigem cautela é a chamada transferência secundária. Uma pessoa pode deixar células em alguém ou em algum objeto que, posteriormente, entra em contato com outra superfície. Nesse cenário, o material genético pode ser encontrado em um lugar que seu próprio titular nunca tocou diretamente.
A maior sensibilidade das análises laboratoriais amplia a capacidade de encontrar esses pequenos vestígios, inclusive em maçanetas, roupas e objetos compartilhados. Por isso, além de identificar a origem do material, investigadores precisam considerar diferentes hipóteses para explicar sua presença.
Outro desafio aparece quando uma mesma amostra reúne DNA de várias pessoas. Nesses casos, ferramentas estatísticas e softwares especializados auxiliam na interpretação dos diferentes perfis, especialmente em vestígios genéticos complexos.
Da coleta ao laboratório, preservação interfere na análise
A confiabilidade da evidência também depende do trabalho realizado antes da análise genética. Documentação da cena, procedimentos de coleta, acondicionamento e preservação do material e manutenção da cadeia de custódia são etapas essenciais para reduzir riscos de contaminação e preservar as características do vestígio.
Por isso, uma correspondência genética não encerra automaticamente uma investigação. O resultado precisa ser confrontado com fatores como o tipo de superfície, possíveis contatos anteriores, localização da amostra, transferência direta ou indireta e outras evidências disponíveis.
O DNA pode estabelecer uma associação relevante entre uma pessoa e determinado material biológico. Transformar essa associação em uma conclusão sobre o que ocorreu, porém, exige a reconstrução do contexto em que aquele vestígio foi encontrado.
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