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Responsabilidade Social • 10:11h • 12 de março de 2026

Semente de planta comum no Brasil mostra potencial para remoção de microplásticos da água

Extrato salino obtido de moringa, ou acácia-branca, apresentou propriedades semelhantes ao sulfato de alumínio no processo de coagulação que antecede a filtração da água para consumo humano

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Gabrielle Batista

Jar Test simula, em pequena escala, tratamento de água: experimentos mostraram boa eficiência da semente de moringa para coagulação de microplásticos.
Jar Test simula, em pequena escala, tratamento de água: experimentos mostraram boa eficiência da semente de moringa para coagulação de microplásticos.

Pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICT-Unesp), em São José dos Campos, identificaram que a moringa, também conhecida como acácia-branca (Moringa oleifera), pode ajudar na remoção de microplásticos da água. O estudo foi publicado na revista científica ACS Omega, da Sociedade Americana de Química.

Originária da Índia, a moringa se adapta bem a regiões tropicais e já é utilizada para diferentes finalidades, inclusive na alimentação, por causa do valor nutricional de suas folhas e sementes. Nos últimos anos, as sementes da planta também vêm sendo estudadas pelo potencial no tratamento de água.

Segundo a pesquisadora Gabrielle Batista, primeira autora do estudo, o extrato salino das sementes apresentou desempenho semelhante ao do sulfato de alumínio, substância amplamente utilizada em estações de tratamento para coagular partículas presentes na água. Em ambientes com água mais alcalina, o extrato de moringa chegou a apresentar resultados ainda melhores.

A pesquisa foi desenvolvida durante o mestrado da autora no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB) da Unesp, sob coordenação do professor Adriano Gonçalves dos Reis, do ICT-Unesp. O trabalho integra o projeto “Filtração direta e em linha para remoção de microplásticos da água de abastecimento”, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

De acordo com Reis, uma das limitações observadas em comparação ao sulfato de alumínio foi o aumento da matéria orgânica dissolvida na água, o que poderia elevar os custos do processo em sistemas maiores. Mesmo assim, ele destaca que a técnica pode ser uma alternativa eficiente e de baixo custo para pequenas comunidades e propriedades rurais.

O estudo analisou o tratamento de água por meio da chamada filtração em linha. Nesse processo, a água passa primeiro pela coagulação, que desestabiliza as partículas presentes, e depois segue para um filtro de areia. Esse tipo de sistema é indicado principalmente para águas com baixa turbidez, ou seja, mais claras.

A coagulação é necessária porque partículas como microplásticos possuem carga elétrica negativa, o que faz com que se repilam entre si e também em relação à areia dos filtros. Coagulantes, como o extrato de moringa ou o sulfato de alumínio, neutralizam essa carga, permitindo que as partículas se juntem e sejam removidas na filtração.

Em pesquisas anteriores, o mesmo grupo já havia demonstrado a eficácia das sementes de moringa em um ciclo completo de tratamento de água, que inclui etapas de floculação, sedimentação e filtração.


Semente de moringa: extrato salino gerou coagulação necessária para a filtração de microplásticos (foto: Adriano Reis/ICT-Unesp)

Para avaliar a eficiência do método, os cientistas utilizaram água de torneira contaminada experimentalmente com microplásticos de policloreto de vinila (PVC). Esse material foi escolhido por ser considerado um dos mais preocupantes para a saúde humana, devido ao potencial mutagênico e cancerígeno, além de ser frequentemente encontrado em ambientes aquáticos e até em água tratada por métodos convencionais.

Os microplásticos de PVC utilizados no experimento foram envelhecidos artificialmente por meio de radiação ultravioleta, simulando o desgaste que ocorre na natureza.

Depois disso, a água contaminada passou por um processo de coagulação e filtração em um equipamento chamado Jar Test, que reproduz em pequena escala o funcionamento de estações de tratamento de água. Os resultados obtidos com o extrato de moringa foram comparados com os do tratamento tradicional com sulfato de alumínio.

A quantidade de microplásticos antes e depois do tratamento foi analisada por microscopia eletrônica de varredura. Os pesquisadores também avaliaram o tamanho dos flocos formados durante o processo, utilizando câmera de alta velocidade e feixe de laser. Os testes mostraram que não houve diferença significativa na remoção das partículas.

Atualmente, o grupo também está testando o extrato das sementes de moringa em água coletada diretamente do rio Paraíba do Sul, responsável pelo abastecimento de São José dos Campos. Nos experimentos iniciais, o método também tem apresentado bons resultados.

Segundo os pesquisadores, há uma preocupação crescente com o uso de coagulantes à base de alumínio e ferro, que não são biodegradáveis e podem deixar resíduos potencialmente tóxicos na água. Por isso, a busca por alternativas naturais e mais sustentáveis tem ganhado cada vez mais espaço nas pesquisas científicas.

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