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Variedades • 09:22h • 19 de setembro de 2026

Se o preço para salvar o futebol for adoecer a sociedade, alguma coisa está muito errada

O futebol brasileiro existia antes das bets e continuará existindo depois delas; o que não pode continuar é a ideia de que os custos sociais das apostas são problema apenas de quem joga

Da Redação | Foto: Âncora1/Ilustração

Entre o dinheiro das bets e seus impactos na sociedade, o futebol precisa fazer uma escolha
Entre o dinheiro das bets e seus impactos na sociedade, o futebol precisa fazer uma escolha

O debate sobre o futuro das bets e dos cassinos online no Brasil ganhou um argumento que merece atenção. Diante da possibilidade de maior restrição ou até de proibição dessas plataformas, setores ligados ao futebol passaram a alertar para as consequências que uma medida desse porte poderia provocar no esporte, hoje fortemente financiado por empresas de apostas. Em outras palavras, criou-se a impressão de que mexer nas bets significaria colocar em risco o próprio futebol brasileiro.

É uma afirmação poderosa. Talvez poderosa demais.

O futebol brasileiro não nasceu com as bets. Não construiu sua história com elas e atravessou gerações, crises econômicas, transformações na televisão, mudanças no mercado publicitário e diferentes modelos de patrocínio muito antes de uma plataforma de apostas ocupar praticamente todos os espaços disponíveis em uma camisa.

Se hoje parte importante do esporte criou uma dependência financeira desse mercado, é legítimo discutir como essa relação foi construída. O que não parece razoável é transferir para toda a sociedade a responsabilidade de preservá-la.

E então chegamos à pergunta incômoda.

Se tivermos de escolher entre proteger determinado modelo econômico do futebol e proteger milhões de brasileiros dos danos provocados pelo jogo, qual deles deve vir primeiro?

Ninguém joga sozinho

Existe uma ideia perigosa de que apostar é uma decisão exclusivamente individual. Quem não joga costuma pensar que o assunto não lhe diz respeito. Se alguém perder dinheiro, contrair dívidas ou comprometer o orçamento familiar, seria problema daquela pessoa.

Não é tão simples.

Vivemos em sociedade. Somos partes de um mesmo organismo. Quando uma parte adoece, as consequências não permanecem necessariamente isoladas nela. Uma pessoa endividada pertence a uma família, trabalha, consome, paga contas, utiliza serviços públicos, movimenta a economia e participa de uma comunidade.

Multiplique isso não por uma pessoa, mas por milhares ou milhões.

Quando o dinheiro destinado ao supermercado, à prestação, ao aluguel ou a outras necessidades passa a alimentar apostas, seus efeitos podem ultrapassar o apostador. Endividamento, sofrimento emocional, conflitos familiares, perda de capacidade de consumo e necessidade de assistência formam uma cadeia muito maior do que a tela de um celular.

É por isso que dizer "quem quiser jogar, que jogue" encerra uma discussão que deveria justamente começar ali.

O problema do outro também pode chegar até nós.

O argumento do mercado ilegal não encerra o debate

Outro argumento recorrente é o de que proibir ou restringir severamente as plataformas regulamentadas simplesmente empurraria os apostadores para sites clandestinos.

O risco existe e precisa ser considerado. Mas a existência da ilegalidade não pode, por si só, determinar o que uma sociedade decide regulamentar, restringir ou proibir.

Seguindo essa lógica, qualquer atividade potencialmente danosa deveria ser permitida simplesmente porque sua proibição poderia gerar um mercado clandestino.

Cabe ao Estado fiscalizar. Cabe às autoridades identificar operadores irregulares, bloquear plataformas quando houver respaldo legal, impedir movimentações ilícitas e aperfeiçoar permanentemente os mecanismos de controle.

É possível discutir se a proibição seria a melhor política pública. É possível defender regulamentação mais dura, limites de publicidade, mecanismos de proteção ao consumidor, restrições financeiras ou outros modelos. Essa discussão é legítima e precisa ser baseada em evidências.

O que não deveria ser tratado como inevitável é que a sociedade tenha de aceitar qualquer nível de exposição às apostas porque determinados setores passaram a depender financeiramente delas.

Dinheiro de verdade, consequências de verdade

Bet não é apenas uma brincadeira digital.

Existe dinheiro real entrando naquele sistema. Dinheiro conquistado com trabalho e necessário para viver em uma sociedade na qual alimentação, moradia, saúde, transporte, educação e praticamente todas as necessidades básicas dependem de recursos financeiros.

A promessa psicológica do jogo é sedutora justamente porque apresenta a possibilidade de multiplicar esse dinheiro. Ganhar mais, recuperar uma perda, fazer uma aposta para compensar a anterior; tentar novamente.

É nesse mecanismo que o entretenimento pode deixar de ser apenas entretenimento.

E quanto maior a presença das apostas no cotidiano, na publicidade, nas redes sociais, nos influenciadores, nas transmissões esportivas e no próprio futebol, mais natural esse comportamento pode parecer.

Talvez seja justamente aí que o futebol precise refletir sobre a responsabilidade que acompanha sua extraordinária capacidade de influência.

Futebol existia antes das bets

É difícil aceitar que o destino de um dos maiores patrimônios culturais brasileiros tenha se tornado indissociável de empresas de apostas em tão pouco tempo.

Se retirar as bets do futebol realmente provocar uma crise profunda, a pergunta não deveria ser apenas como preservar esse dinheiro.

Deveríamos perguntar como permitimos que a dependência chegasse a esse tamanho.

Patrocinadores existiam antes. Modelos comerciais existiam antes. Direitos de transmissão existiam antes. Torcedores compravam ingressos e produtos antes. Empresas associavam suas marcas aos clubes antes.

As bets encontraram no futebol uma gigantesca vitrine. O futebol, por sua vez, encontrou nelas uma fonte extremamente valiosa de receita.

Foi uma escolha econômica. Não uma condição natural para a existência do esporte.

E escolhas econômicas podem ser revistas.

A posição do Âncora1

O Âncora1 é contrário à publicidade de bets e cassinos online.

Não chegamos a essa posição agora. Desde o lançamento do portal, recusamos anúncios desse segmento. Continuamos recebendo propostas comerciais, algumas delas financeiramente atraentes. Para uma empresa de comunicação regional, seria dinheiro útil. Pagaria despesas, financiaria projetos e ajudaria nossa própria operação.

Mesmo assim, recusamos.

Seria incoerente publicar reportagens sobre endividamento, dependência, saúde mental e consequências sociais associadas ao jogo e, alguns centímetros ao lado, oferecer ao leitor um botão convidando-o a apostar.

Existem receitas que uma empresa pode decidir não receber.

Essa é uma delas para nós.

Não pretendemos dizer às pessoas como devem conduzir suas vidas. Pretendemos, porém, continuar informando sobre os riscos e consequências desse mercado e manter nossa publicidade coerente com aquilo que defendemos editorialmente.

Porque comunicação também envolve responsabilidade.

Somos parte do mesmo corpo

Talvez essa seja a parte mais difícil dessa discussão.

Precisamos abandonar a ilusão de que os problemas sociais terminam no portão da casa de quem os enfrenta.

Seu vizinho não vive em outro planeta. Nem você.

Uma sociedade funciona como um organismo. Uma lesão localizada pode provocar consequências em outras partes do corpo. Uma cirurgia realizada em um ponto deixa o organismo inteiro vulnerável por algum tempo.

Com uma comunidade acontece algo semelhante.

O endividamento de uma pessoa parece individual, o de milhões deixa de ser.

O sofrimento de uma família parece particular, multiplicado milhares de vezes, torna-se uma questão social.

A perda da capacidade de consumo parece um problema doméstico, e em grande escala, alcança empresas, empregos, arrecadação e atividade econômica.

Tudo está conectado.

Por isso, diante do argumento de que combater ou restringir as bets poderia representar o fim do futebol como o conhecemos, preferimos fazer outra pergunta.

Que futebol queremos salvar?

Um esporte que reconheça sua força cultural e seja capaz de encontrar novas formas de financiamento ou um modelo que considere indispensável uma indústria cujos custos sociais precisam, necessariamente, fazer parte da discussão?

O Âncora1 fez sua escolha editorial.

Continuaremos sem publicidade de bets. Continuaremos recusando esse dinheiro. Continuaremos publicando informações sobre os impactos das apostas e defendendo que existem inúmeras formas de lazer capazes de divertir sem colocar em risco o orçamento de uma família.

O futebol é maior do que as bets.

E nenhuma camisa, campeonato, patrocínio ou contrato publicitário deveria valer mais do que as pessoas que fazem o próprio futebol existir.

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