Economia • 14:09h • 19 de outubro de 2026
Quase 1 milhão de propriedades rurais no Brasil já são comandadas por mulheres
Participação feminina alcança 19% dos estabelecimentos agropecuários, mas dificuldades de acesso ao crédito, à tecnologia e à titularidade da terra ainda limitam a autonomia das produtoras
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação
As mulheres já estão à frente de aproximadamente 947 mil estabelecimentos agropecuários no Brasil, o equivalente a 19% do total, segundo dados do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e levantamentos sobre a participação feminina no setor. Os números, destacados por ocasião do Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado no último dia 15 de outubro, revelam a importância da presença feminina na produção de alimentos e na administração das propriedades, mas também evidenciam desafios relacionados ao financiamento, à renda e à independência econômica.
Além das propriedades dirigidas diretamente por mulheres, mais de 30% dos estabelecimentos rurais contam com gestão compartilhada entre homens e mulheres. Essa participação amplia o papel feminino nas decisões sobre investimentos, produção, comercialização e continuidade dos negócios familiares.
A presença das produtoras também se destaca na agricultura familiar, na agroecologia e no processamento de alimentos. Entretanto, parte desse trabalho ainda é considerada uma extensão das responsabilidades familiares, sem reconhecimento formal como atividade remunerada, o que pode dificultar o acesso a recursos financeiros e oportunidades de crescimento.
Para Kelvia Carneiro, representante da Cactvs, instituição de pagamento autorizada pelo Banco Central que atua com soluções de microcrédito, a ampliação da participação feminina precisa ser acompanhada de condições que permitam transformar o trabalho em autonomia econômica.
“A mulher rural já exerce um papel fundamental na produção e na gestão das propriedades, mas ainda enfrenta barreiras para transformar esse trabalho em maior autonomia econômica. O acesso ao crédito, à informação e a instrumentos que permitam investir na produção é fundamental para que ela consiga ampliar sua atividade e tomar decisões com mais independência”, afirma.
Crédito e titularidade da terra ainda são obstáculos
Um dos principais desafios enfrentados pelas produtoras está relacionado à documentação e à titularidade das propriedades. Quando a terra ou os bens utilizados como garantia não estão registrados em nome da mulher, a obtenção de financiamento pode se tornar mais difícil, mesmo quando ela participa diretamente da administração e da produção.
Linhas específicas de financiamento, como o Pronaf Mulher, e iniciativas como Quintais Produtivos buscam ampliar as oportunidades econômicas para mulheres da agricultura familiar. Os recursos e apoios disponíveis, conforme as regras de cada programa, podem contribuir para investimentos produtivos, aquisição de equipamentos, melhoria da infraestrutura e diversificação das atividades.
Segundo Kelvia, o acesso ao financiamento também pode fortalecer a participação feminina nas decisões sobre o futuro das propriedades. “Quando uma produtora consegue acessar crédito para melhorar sua produção, comprar equipamentos ou diversificar a atividade, o recurso deixa de ser apenas um financiamento e passa a ser uma ferramenta de desenvolvimento. Isso fortalece a renda da família e a própria autonomia da mulher dentro da propriedade”, explica.
A questão ganha relevância diante da sucessão rural, processo que envolve a continuidade das atividades agrícolas entre gerações. A maior presença de mulheres na administração e no planejamento financeiro pode contribuir para a manutenção dos negócios familiares e a modernização da produção.
Jornada de trabalho e responsabilidades familiares ampliam desafios
Além das dificuldades financeiras, muitas mulheres que vivem e trabalham no campo enfrentam uma dupla ou tripla jornada. As atividades agrícolas frequentemente são acumuladas com tarefas domésticas e cuidados com filhos, idosos e outros familiares, reduzindo o tempo disponível para capacitação profissional e desenvolvimento de novos negócios.
Essa realidade também influencia as oportunidades de acesso à tecnologia, à informação e à qualificação, fatores importantes para melhorar a produtividade e ampliar a participação feminina no mercado agropecuário.
Em regiões com forte presença da agricultura, como Assis e municípios do interior paulista, o debate envolve tanto a participação das mulheres na produção quanto o reconhecimento de seu papel na gestão e na continuidade das propriedades familiares.
Embora os dados apontem uma presença expressiva das mulheres no setor, a ampliação da autonomia econômica depende de condições que favoreçam o acesso ao crédito, à documentação, à capacitação e aos instrumentos necessários para administrar e desenvolver suas atividades.
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