Variedades • 12:02h • 22 de agosto de 2026
Quando o trabalho deixa de ser o que fazemos e passa a ser quem somos
Entre clientes, metas e cobranças, Alessandra Lucco reflete sobre o desafio de construir uma carreira com paixão sem transformar resultados profissionais em medida de valor pessoal
Coluna | Alessandra Lucco | Foto: Âncora1
Se alguém me pedir para me apresentar, é muito provável que eu comece dizendo: “Sou Alessandra, advogada”. Depois vêm as outras informações. Empresária, mãe, os negócios, os projetos, os anos de experiência.
A resposta parece tão natural que nunca me ocorreu questioná-la. Afinal, sou advogada. Trabalho com isso há muitos anos, construí minha carreira nessa profissão e gosto profundamente do que faço.
Mas tenho pensado que existe uma diferença importante entre dizer o que fazemos e dizer quem somos. Em algum momento, sem perceber, deixei de apenas exercer uma profissão e comecei a usá-la como uma das principais formas de me reconhecer.
Essa percepção ficou mais evidente depois que comecei a empreender. Quando o escritório cresce, quando um projeto dá certo, quando um cliente reconhece o trabalho ou quando uma ideia encontra espaço no mercado, é fácil sentir que aquilo confirma alguma coisa sobre nós.
A sensação é boa e, até certo ponto, natural. O problema aparece quando fazemos o caminho inverso. Se o escritório passa por um período de estagnação, começo a questionar a qualidade do meu trabalho. Se um cliente decide deixar o escritório e contratar outro profissional, por qualquer razão, uma parte de mim imediatamente pergunta se eu não sou boa o suficiente. Um resultado ruim deixa de ser apenas um resultado ruim e passa a parecer uma espécie de julgamento sobre quem eu sou.
Meu trabalho emocional desde que comecei a empreender tem sido, em boa medida, separar o CPF do CNPJ. Não é uma tarefa simples quando colocamos tanto de nós naquilo que construímos.
O negócio leva nossas ideias, nosso nome, nossas escolhas, nossos riscos, nossas noites mal dormidas e uma quantidade enorme de energia. É inevitável que exista algum grau de identificação. O que tenho tentado aprender é que identificação não pode significar fusão. A empresa pode atravessar um momento difícil sem que isso signifique que eu seja uma profissional ruim. Um cliente pode escolher outro escritório sem que isso seja uma prova de incompetência. Uma ideia pode não funcionar sem que ela transforme em fracasso a pessoa que teve a coragem de colocá-la no mundo.
Existe uma lógica muito presente no mundo contemporâneo do trabalho que associa desempenho, produtividade e capacidade de realização ao valor individual.
Somos estimulados a construir uma carreira, desenvolver competências, produzir mais, crescer, alcançar metas e transformar constantemente quem somos em uma versão mais eficiente de nós mesmos. Há aspectos positivos nisso, evidentemente. Ambição, disciplina e desejo de realização não são problemas. O problema começa quando o resultado deixa de ser apenas uma medida sobre aquilo que fazemos e passa a ser a medida daquilo que acreditamos ser.
Para quem empreende, essa confusão pode ser especialmente perigosa. Uma empresa nunca permanece no mesmo lugar. Existem ciclos de crescimento, períodos de investimento, momentos de estabilidade, decisões que dão certo e outras que precisam ser revistas. Nenhum negócio, independentemente do segmento ou da competência de quem o administra, cresce em linha reta. Se a cada oscilação do negócio colocarmos em dúvida nosso próprio valor, estaremos condenados a viver em uma montanha-russa emocional comandada pelo faturamento, pelos clientes, pelos resultados e pela opinião dos outros.
Para as mulheres, essa equação ainda ganha outras variáveis. Depois de uma jornada de trabalho, muitas de nós iniciamos outra. Existe a casa, os filhos, a organização da família, a carga mental de lembrar aquilo que precisa acontecer antes mesmo que aconteça. Existe uma quantidade enorme de pequenos assuntos que continuam funcionando em segundo plano enquanto estamos em uma reunião, conduzindo uma equipe ou tomando uma decisão importante para a empresa. E, nesse cenário, é muito fácil transformar produtividade em uma espécie de prova diária de valor. Se conseguimos equilibrar todos os pratos, sentimos que fomos boas. Se um deles cai, a sensação é de fracasso.
Tenho tentado sair desse lugar. Não significa diminuir minha ambição, deixar de querer que o escritório cresça ou me conformar com resultados que poderiam ser melhores. Continuo querendo fazer um trabalho excelente. Continuo olhando para empresas que admiro, buscando referências e pensando em como posso melhorar aquilo que construí. A diferença está em tentar olhar para tudo isso sem transformar cada resultado em uma sentença sobre mim.
Meu valor não pode depender de o escritório estar crescendo naquele trimestre. Minhas ideias não deixam de ser boas porque uma delas não funcionou. Minha capacidade profissional não desaparece porque um cliente escolheu outro caminho. E uma fase menos produtiva não apaga tudo aquilo que foi construído nos anos anteriores.
Tenho aprendido a olhar para os meus negócios com a mesma racionalidade com que provavelmente analisaria o negócio de outra pessoa. Se uma empresa está passando por dificuldades, eu procuraria entender o cenário, os números, as causas, as alternativas e os próximos passos. Não diria ao empresário que ele é um fracasso porque aquele trimestre foi ruim.
Por que, então, tantas vezes fazemos isso conosco?
Ainda não tenho uma resposta definitiva. Continuo me pegando misturando as duas coisas. Continuo tendo dias em que uma dificuldade profissional chega muito mais perto de mim do que deveria. A diferença é que hoje consigo perceber um pouco mais rápido quando estou fazendo isso. Tento lembrar que existe uma Alessandra antes da advogada, ao lado da advogada e depois dela. Uma pessoa que gosta de determinadas coisas, que tem relações, curiosidades, medos, ideias e uma vida que não pode ser resumida ao resultado do próprio trabalho.
Uma das partes mais difíceis de empreender é justamente essa: construir alguma coisa com paixão sem permitir que aquilo que construímos nos consuma por inteiro. Eu amo o que faço. Tenho orgulho da profissão que escolhi e das empresas que ajudo a construir. Quero que elas prosperem. Quero continuar crescendo. Mas tenho tentado fazer esse exercício silencioso de separar o resultado da identidade, o negócio da pessoa, o que aconteceu hoje daquilo que eu sou.
Porque o escritório pode ter um dia ruim. A empresa pode precisar mudar de rota. Um projeto pode fracassar. Um cliente pode ir embora. Tudo isso faz parte da vida empresarial. E eu, pessoa física, continuo aqui.
E isso precisa ser suficiente para que eu me lembre de que, antes de qualquer resultado, existe uma pessoa que tem valor independentemente daquilo que conseguiu produzir naquele dia.
Agora vou preparar um chá. Até a próxima xícara.
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