Policial • 18:29h • 03 de setembro de 2026
Psicopata nasce ou se torna psicopata? Ciência aponta uma combinação de fatores
Genética, funcionamento cerebral, experiências de vida e desenvolvimento podem influenciar traços psicopáticos, mas nenhum deles determina sozinho o comportamento de uma pessoa
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Dampress Assessoria | Foto: Divulgação
Afinal, uma pessoa nasce psicopata ou se torna psicopata ao longo da vida?
A ciência ainda não encontrou uma causa única para explicar a origem desses traços. As evidências apontam para uma interação complexa entre predisposições biológicas, características individuais, desenvolvimento e fatores ambientais, sem que qualquer um desses elementos permita prever isoladamente quem apresentará essas características ou cometerá atos de violência.
A discussão voltou a ganhar espaço após um caso de violência extrema em Goiás, no qual uma jovem de 24 anos foi resgatada depois de permanecer cinco dias em cativeiro. Segundo as investigações e o relato da vítima, ela teria sido mantida acorrentada e amordaçada e sofrido violência sexual praticada pelo ex-companheiro.
Casos como esse frequentemente levam ao uso do termo “psicopata” para tentar explicar comportamentos considerados cruéis ou incompreensíveis. Karine Vieira de Castro Quadros, especialista em Ciências Forenses, com concentração em Biologia Molecular Forense, e perita criminal, alerta, porém, que características observadas em um crime não são suficientes para classificar alguém dessa forma.
Genética influencia, mas não determina
Estudos de genética comportamental indicam que alguns traços relacionados à psicopatia possuem componente hereditário. Isso não significa, entretanto, a existência de um “gene da psicopatia” capaz de definir previamente como alguém se comportará.
A neurociência também investiga diferenças no funcionamento cerebral de pessoas que apresentam esses traços, principalmente em processos ligados às emoções, medo, tomada de decisões e controle do comportamento. Até o momento, porém, não existe um exame cerebral isolado capaz de determinar que uma pessoa seja psicopata ou prever que ela se tornará violenta.
O ambiente acrescenta outra dimensão. Experiências adversas na infância, violência, negligência, abusos, ausência de vínculos seguros e diferentes condições de desenvolvimento são estudadas pela possível influência sobre a regulação emocional, formação da empatia e senso moral. A associação também não é automática, ter vivido uma infância traumática não significa que alguém desenvolverá psicopatia.
Um crime não permite diagnóstico à distância
Planejamento, manipulação, violência, frieza ou aparente ausência de remorso podem aparecer associados a traços psicopáticos, mas não bastam para uma classificação, principalmente quando são observados a partir de um episódio isolado e sem avaliação adequada.
No campo forense, a análise do comportamento e da personalidade exige métodos próprios e profissionais habilitados. Por isso, crimes de grande repercussão podem ajudar a discutir cientificamente o comportamento humano, mas não devem servir como base para diagnosticar suspeitos à distância.
A distinção também é importante para evitar uma associação automática entre traços psicopáticos e violência. Encontrar determinados traços não permite concluir que uma pessoa esteja destinada a praticar crimes.
Então, psicopata nasce ou se torna?
A resposta científica disponível não aponta exclusivamente para nenhuma das duas possibilidades. Há evidências tanto de influência genética quanto da participação do ambiente e das experiências de desenvolvimento, e a compreensão atual se concentra justamente em como esses diferentes elementos interagem ao longo da vida.
“Entre encontrar uma associação e estabelecer uma causa existe uma distância significativa. E entre identificar determinados traços e concluir que alguém está destinado à violência existe uma distância ainda maior”, destaca Karine.
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