Mundo • 08:58h • 29 de maio de 2026
Pessoas negras são maiores vítimas de homicídios no país
Racismo está entre principais causas, aponta Atlas da Violência 2026
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
As desigualdades estruturais, a criminalidade e o racismo ainda mantêm a violência letal contra pessoas negras em níveis elevados no Brasil, segundo o Atlas da Violência 2026, divulgado na terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Em 2024, o país registrou 32.820 homicídios de pessoas negras, o equivalente a 77% de todos os assassinatos ocorridos no Brasil. A taxa foi de 27,3 mortes para cada 100 mil pessoas negras, o que representa cerca de 90 vítimas por dia.
Entre pessoas não negras — grupo que inclui brancos, amarelos e indígenas — foram contabilizados 9.234 homicídios, com taxa de 10,1 mortes por 100 mil habitantes. Segundo o levantamento, a taxa de homicídios entre negros é 170,3% maior do que entre não negros.
Entre 2014 e 2024, mais de 435 mil pessoas negras foram assassinadas no país, contra cerca de 132 mil vítimas não negras. Embora tenha havido redução nos homicídios dos dois grupos, a queda foi desigual: entre não negros, a redução chegou a 38,9%, enquanto entre negros ficou em 21,7%.
O Atlas aponta ainda que uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra. Em Alagoas, esse risco chega a ser 23 vezes maior. O Amapá e Sergipe aparecem em seguida entre os estados com maiores desigualdades raciais nas taxas de homicídio.
Segundo o coordenador do Atlas da Violência, Daniel Cerqueira, técnico do Ipea, a violência tem aumentado de forma mais intensa contra grupos minoritários no país.
Violência contra população LGBTQIA+
O estudo destaca que o Estado brasileiro ainda falha em registrar de maneira sistemática a motivação dos crimes contra pessoas LGBTQIA+, o que gera invisibilidade institucional e dificulta a criação de políticas públicas mais eficazes.
Em 2024, as notificações de violência contra homossexuais e bissexuais cresceram 5,5%, totalizando 10.250 registros. Já os casos envolvendo pessoas transexuais e travestis aumentaram 2,5%, chegando a 5.575 notificações.
Entre homossexuais, os registros subiram de 7.043 para 7.378 casos entre 2023 e 2024. Entre bissexuais, o aumento foi de 7,4%, passando de 2.675 para 2.872 notificações.
As ocorrências envolvendo mulheres trans cresceram 3,6% em 2024, alcançando 3.594 casos, mais que o dobro do registrado entre homens trans. Entre travestis, o aumento foi de 4,1%.
No acumulado entre 2014 e 2024, as notificações de violência contra homossexuais e bissexuais cresceram 212,7%. Entre pessoas bissexuais, a alta foi ainda mais expressiva, chegando a 781%.
O levantamento também mostra forte desigualdade racial nesses casos. Pessoas negras representam 67% das vítimas travestis e 61% das mulheres transexuais vítimas de violência.
Pessoas com deficiência
Entre pessoas com deficiência, a violência sexual aparece como uma das formas mais graves de violência, especialmente entre pessoas com deficiência intelectual e transtornos mentais.
As mulheres são as principais vítimas. Entre mulheres com deficiência intelectual, a violência sexual corresponde a quase 45% das notificações. Já entre homens com a mesma condição, o índice é de 20,1%.
A violência doméstica concentra a maior parte das notificações de agressão física nesse grupo, representando quase 68% dos casos.
O estudo aponta predominância de vítimas com deficiência intelectual do sexo feminino e destaca que pessoas com transtornos mentais concentram o maior número de notificações de violência.
Os registros são mais frequentes entre adolescentes de 10 a 19 anos. Na infância, predominam casos de negligência e abandono. Já na adolescência, a violência sexual atinge o maior nível.
Na vida adulta, a violência física passa a ser predominante. Entre idosos com deficiência, crescem os casos de negligência e abandono.
Violência contra indígenas
O Atlas da Violência aponta um cenário crítico para os povos indígenas, marcado por conflitos territoriais, violência crescente e aumento de assassinatos.
Em 2024, a taxa de homicídios entre indígenas voltou a subir e ficou cerca de 22% acima da média nacional.
No Amazonas, o número de homicídios de indígenas dobrou em apenas um ano, passando de 36 casos em 2023 para 73 em 2024. Na Bahia, o crescimento foi de 84,6%.
Segundo o estudo, a violência contra indígenas está fortemente ligada a disputas territoriais e conflitos socioambientais.
O levantamento também revela aumento contínuo da violência contra mulheres indígenas. Os casos de violência física passaram de 359 em 2014 para 1.330 em 2024.
A violência sexual teve crescimento ainda mais alarmante: os registros saltaram de 115 para 669 casos no mesmo período.
Também cresceram os casos de negligência e violência psicológica contra mulheres indígenas ao longo da série histórica.
Violência contra idosos
Entre 2014 e 2024, os registros de violência interpessoal contra idosos cresceram 226,3% no sistema de saúde, somando mais de 30 mil casos anuais.
A desigualdade racial também aparece nessa faixa etária. Homens idosos negros apresentam taxa de homicídio 1,7 vez maior do que homens idosos não negros.
Apesar da queda no número de homicídios de idosos nos últimos anos, o Atlas alerta que a violência contra essa população continua sendo um problema grave.
Em 2024, o Brasil registrou 2.007 homicídios de pessoas com mais de 60 anos, com taxa de 5,9 mortes por 100 mil idosos.
O estudo também chama atenção para o aumento das mortes por queda, que se tornaram uma das principais causas de óbitos por causas externas entre idosos.
Desde os anos 2000, enquanto os homicídios de homens diminuíram 6,6%, as mortes por queda cresceram 345%. Entre mulheres, os homicídios caíram 2,8%, mas as mortes por queda aumentaram 630%.
O Atlas defende a criação de políticas públicas voltadas tanto para o enfrentamento da violência contra idosos quanto para a prevenção de quedas, especialmente diante do envelhecimento acelerado da população brasileira.
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