Responsabilidade Social • 16:24h • 16 de agosto de 2026
Palhaço em hospital não é coisa só de criança: projeto transforma a rotina de pacientes adultos
Arte, conversa e escuta ajudam a devolver leveza a quem enfrenta uma internação e também alcançam familiares, acompanhantes e profissionais da saúde
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação
Um nariz vermelho dentro de um hospital pode parecer algo pensado para crianças, mas pacientes adultos também encontram na palhaçaria uma forma de atravessar momentos difíceis da internação. O projeto Soul Alegria leva artistas aos hospitais com uma proposta que vai além de provocar risadas: criar encontros nos quais doença, exames e tratamentos deixam de ocupar, por alguns minutos, todo o espaço da conversa.
Criado por Clerson Pacheco a partir de sua própria trajetória com a palhaçaria hospitalar, o Soul Alegria trabalha com acolhimento, escuta e respeito à vontade de cada paciente. Antes da brincadeira vem a observação. Se alguém não quiser receber os artistas, a escolha é respeitada.
Essa liberdade faz parte da própria maneira como o projeto entende a humanização. O paciente pode conversar, brincar, contar uma lembrança ou simplesmente não participar. Quando o encontro acontece, assuntos como família, profissão, sonhos e histórias pessoais ajudam a lembrar que existe uma vida inteira além daquele quarto.
Quando o quarto volta a ter histórias
Foi durante uma dessas visitas que uma paciente com mais de 70 anos começou a contar sua história de amor. Ela relembrou o reencontro, depois de décadas, com o homem que amava, o casamento dos dois e os anos vividos juntos. Por alguns instantes, a internação deixou de ser o centro daquela conversa.
Outro encontro aconteceu com Dona Dirce, internada após problemas de saúde e que havia passado dias sem sorrir, segundo o relato da família. Durante a visita dos artistas, a filha registrou a mãe sorrindo novamente. Ao descobrirem que ela era pintora, surgiu uma brincadeira sobre um pano de prato. Depois de receber alta, Dona Dirce voltou ao hospital para entregar aos artistas uma peça feita por ela.
São episódios que ajudam a explicar por que o trabalho não se resume ao humor. “Nosso propósito nunca foi apenas provocar risadas, mas criar encontros verdadeiros entre seres humanos”, afirma Clerson.
O cuidado também chega a quem está ao lado da cama
A proposta não termina no paciente. Familiares e acompanhantes que passam longos períodos no hospital, além de médicos, enfermeiros e outros profissionais, também podem participar das interações.
Para o projeto, esse olhar mais amplo é importante porque uma internação altera a rotina de várias pessoas ao mesmo tempo. O ambiente costuma ser marcado por preocupação, espera e incerteza, e pequenos momentos de descontração podem mudar temporariamente essa dinâmica.
“Nós enxergamos primeiro o ser humano, e não o cargo, a doença ou qualquer rótulo”, explica Clerson. A ideia é permitir que cada pessoa determine até onde aquela aproximação pode chegar.
A palhaçaria hospitalar não substitui medicamentos, procedimentos ou qualquer outro cuidado clínico. Sua atuação ocorre em outra dimensão da internação: a experiência humana de quem permanece naquele ambiente.
É justamente aí que um encontro aparentemente simples ganha significado. Para um adulto internado, poder falar novamente sobre amores, profissão, família, lembranças e planos pode ser também uma maneira de deixar de ser, ainda que por alguns minutos, apenas um paciente.
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