Ciência e Tecnologia • 19:22h • 24 de outubro de 2026
Ostras e mexilhões não têm olhos, mas conseguem perceber a luz de formas que surpreendem cientistas
Pesquisa da USP revela que moluscos sem olhos possuem até nove tipos de proteínas sensíveis à luz, número superior ao encontrado na retina humana
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Agência Fapesp | Foto: Jorge Audino/IB-USP
Ostras, mexilhões e outros moluscos conseguem perceber a luz mesmo sem possuir olhos, graças a um sistema biológico mais complexo do que se imaginava. A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com cientistas norte-americanos, e publicada na revista Proceedings of the Royal Society B. O estudo identificou que algumas espécies sem estruturas visuais apresentam até nove tipos de proteínas sensíveis à luz, enquanto a retina humana utiliza cinco.
Essas proteínas, chamadas opsinas, permitem identificar mudanças na intensidade e na direção da iluminação. Embora não formem imagens, ajudam os animais a reconhecer alterações no ambiente, como sombras provocadas pela aproximação de possíveis predadores, desencadeando reações de proteção.
A descoberta surpreendeu os pesquisadores porque revela uma capacidade de percepção luminosa muito mais diversificada do que se conhecia nesses organismos. Segundo Jorge Audino, primeiro autor do estudo e pesquisador do Instituto de Biociências da USP, a quantidade de opsinas encontrada indica que a pele desses animais pode desempenhar funções relacionadas à luz ainda desconhecidas pela ciência.
Como animais sem olhos conseguem perceber a luz?
A explicação está nas opsinas, proteínas especializadas na captação de estímulos luminosos. Diferentemente dos seres humanos, que dependem de estruturas oculares para formar imagens, os moluscos podem utilizar essas moléculas presentes em tecidos expostos à iluminação para identificar mudanças no ambiente.
Para investigar essa capacidade, os cientistas analisaram 17 espécies de bivalves, incluindo nove coletadas em São Sebastião, no litoral paulista, três provenientes dos Estados Unidos e outras cinco estudadas a partir de bancos de dados científicos. Por meio de análises genéticas, identificaram quais proteínas eram expressas nas regiões mais expostas à luz.
Os resultados mostraram que espécies sem estruturas visuais primitivas, chamadas ocelos, podem apresentar até nove tipos de opsinas. Já entre os animais que possuem essas estruturas, a diversidade variou de cinco a 12 tipos. A ostra-do-pacífico (Magallana gigas), por exemplo, não possui ocelos, mas apresenta nove opsinas.
Apesar dessa diversidade, os pesquisadores ressaltam que possuir mais proteínas sensíveis à luz não significa enxergar melhor. A formação de imagens depende também da organização dos olhos e do sistema nervoso. Polvos e lulas, por exemplo, possuem apenas um tipo de opsina visual nos olhos, mas apresentam uma das capacidades visuais mais desenvolvidas entre os invertebrados.
Descoberta contraria hipótese sobre a movimentação dos moluscos
Outro resultado inesperado foi a ausência de relação entre a quantidade de opsinas e a capacidade de locomoção. Inicialmente, os cientistas acreditavam que espécies capazes de nadar apresentariam maior diversidade dessas proteínas, já que precisariam perceber melhor o ambiente durante o deslocamento.
Entretanto, a espécie Arca zebra, que possui mobilidade limitada, apresentou 12 tipos de opsinas, enquanto duas espécies totalmente móveis, Ctenoides ales e Limaria pellucida, registraram apenas seis cada uma. O resultado indica que a percepção luminosa pode estar associada a funções biológicas que vão além da orientação espacial.
Pesquisas anteriores do mesmo grupo também apontaram que a evolução das estruturas visuais desses animais está relacionada aos ambientes ocupados. Espécies que passaram a viver em locais mais iluminados tenderam a desenvolver ocelos, enquanto outras perderam essas estruturas ao migrar para regiões profundas ou soterradas.
Pesquisa pode ajudar a entender impactos da poluição nos oceanos
A descoberta abre novas possibilidades para compreender como ostras, mexilhões e outros moluscos respondem às mudanças ambientais. As opsinas também estão presentes na pele humana e de diversos animais, participando de processos que incluem a regulação do relógio biológico e respostas à exposição luminosa.
Agora, os pesquisadores pretendem investigar outros mecanismos de percepção desses organismos, incluindo estímulos químicos, térmicos e mecânicos. O objetivo é compreender como essas espécies reagem à poluição química e luminosa, considerando sua importância ecológica e econômica.
O estudo recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pode ser consultado na revista Proceedings of the Royal Society B.
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