Saúde • 12:12h • 17 de agosto de 2026
O que ovos podem ter a ver com Alzheimer? Pesquisa encontra redução de até 27% no risco
Pesquisa acompanhou quase 40 mil pessoas durante mais de 15 anos e encontrou redução progressiva do risco conforme aumentava a frequência de consumo
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Midiaria | Foto: Divulgação
O consumo frequente de ovos foi associado a um risco menor de desenvolver doença de Alzheimer em um estudo publicado em 2026 no The Journal of Nutrition, periódico da American Society for Nutrition. Entre 39.498 participantes acompanhados por uma média de 15,3 anos, aqueles que consumiam ovos cinco ou mais vezes por semana apresentaram risco 27% menor de diagnóstico da doença em comparação com pessoas que raramente ou nunca ingeriam o alimento. Ao todo, 2.858 casos foram registrados durante o acompanhamento.
Os resultados mostraram uma associação gradual. O consumo de uma a três vezes por mês esteve relacionado a risco 17% menor, mesmo percentual observado entre quem comia ovos uma vez por semana. Na faixa de duas a quatro vezes semanais, a redução chegou a 20%, enquanto a maior frequência analisada, de cinco ou mais vezes, alcançou 27%.
Os números, porém, não significam que comer ovos impeça o desenvolvimento da doença. O estudo encontrou uma associação entre consumo e menor risco dentro da população acompanhada, enquanto o Alzheimer envolve diferentes fatores genéticos, ambientais, clínicos e relacionados ao estilo de vida.
O que o ovo pode ter a ver com a memória
Uma das hipóteses discutidas para a associação envolve a colina, nutriente encontrado em concentrações elevadas na gema. Segundo o neurologista e professor da Afya Montes Claros Marcelo José da Silva de Magalhães, ela participa de processos diretamente relacionados ao funcionamento cerebral.
“A colina desempenha diversas funções importantes no organismo. Ela é precursora da acetilcolina, um neurotransmissor fundamental para processos como memória, aprendizagem e atenção, além de participar da formação e manutenção das membranas celulares e do metabolismo lipídico”, explica.
Em outra análise apresentada pelos pesquisadores, não consumir ovos esteve associado a risco 22% maior de Alzheimer quando comparado à ingestão de aproximadamente 10 gramas por dia.
A alimentação, entretanto, integra um conjunto muito mais amplo de fatores. Idade avançada, histórico familiar, traumatismo cranioencefálico e aspectos genéticos, como a presença do gene APOE 4, estão entre condições que não podem ser modificadas.
Há fatores de risco que podem ser modificados
Outros componentes podem receber intervenção ao longo da vida. Entre os fatores modificáveis citados pelo neurologista estão hipertensão arterial, obesidade, tabagismo, sedentarismo, diabetes, consumo excessivo de álcool, depressão, perda auditiva, comprometimento visual, isolamento social e exposição à poluição atmosférica. A baixa escolaridade também aparece entre os fatores relacionados ao risco.
A alimentação entra nesse cenário como parte dos cuidados gerais com a saúde. A geriatra e professora da Afya Contagem Érica Abjaudi explica que a nutrição pode atuar sobre processos como inflamação sistêmica de baixo grau e estresse oxidativo, relacionados ao envelhecimento celular.
A médica também chama atenção para a microbiota intestinal e para a presença de fibras prebióticas na alimentação. Segundo ela, uma microbiota saudável pode produzir impactos positivos sobre cognição e humor na população idosa.
Alterações podem começar décadas antes da perda de memória
A prevenção ganha uma dimensão diferente quando considerado o período de desenvolvimento da doença. Segundo Abjaudi, alterações patológicas no cérebro, incluindo o acúmulo de placas amiloides associado ao Alzheimer, podem começar entre 20 e 30 anos antes do aparecimento dos primeiros sintomas clínicos de perda de memória.
Por isso, os cuidados não ficam restritos à terceira idade. Dos 20 aos 40 anos, a orientação é construir reservas cognitiva e física e estabelecer hábitos que reduzam riscos metabólicos futuros.
Entre 40 e 65 anos, ganha importância o acompanhamento da pressão arterial, glicemia e colesterol, além dos cuidados com audição e preservação da massa muscular. Depois dos 65, intervenções ainda podem favorecer neuroplasticidade, mobilidade, prevenção de quedas e manutenção da autonomia.
Alzheimer cresce como desafio mundial
A dimensão da prevenção aumenta diante das projeções para as próximas décadas. Segundo dados da Alzheimer's Disease International citados no material, mais de 55 milhões de pessoas conviviam com demência no mundo em 2020, com um novo caso a cada três segundos.
A estimativa é alcançar 78 milhões de pessoas em 2030 e 139 milhões em 2050. Cerca de 60% das pessoas com demência vivem atualmente em países de baixa e média renda, proporção que poderá chegar a 71% até 2050.
Além da alimentação, Érica recomenda atividade física regular, sono adequado, estímulos cognitivos, aprendizado de novas habilidades e manutenção das relações sociais. Dessa forma, o resultado envolvendo os ovos acrescenta uma informação ao estudo dos fatores associados ao Alzheimer, mas não transforma um único alimento em estratégia isolada de prevenção. Os cuidados com a saúde cerebral envolvem diferentes hábitos e podem começar décadas antes de qualquer sinal de perda de memória.
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