Educação • 19:38h • 07 de novembro de 2025
Número de estudantes de medicina com mais de 35 anos cresce 554% em dez anos
Expectativa de vida maior e desejo de novos propósitos impulsionam brasileiros a investir em carreiras na área da saúde após os 40 anos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Assessoria de Imprensa Inpress | Foto: Divulgação
A presença de estudantes mais velhos nas faculdades de medicina brasileiras tem crescido de forma expressiva na última década. De acordo com estudo da Faculdade de Medicina da USP, o número de alunos com 35 anos ou mais aumentou 554% entre 2013 e 2023, passando de 2,6% para 7,1% do total de matriculados. A tendência reflete transformações no mercado de trabalho, no perfil etário da população e nas novas formas de encarar a trajetória profissional.
Segundo o Censo da Educação Superior, as matrículas no ensino superior entre pessoas com mais de 40 anos mais que dobraram entre 2012 e 2022, com um crescimento de 109%. A medicina, porém, se destaca entre os cursos que mais atraem esse público, unindo propósito, estabilidade e realização pessoal.
Recomeços na maturidade
Aos 49 anos, Fernanda Assayg representa esse novo perfil de estudante. Fonoaudióloga de formação e hoje aluna da Faculdade São Leopoldo Mandic, ela encara o curso de medicina como um passo natural em sua trajetória. “Entendi a medicina não como mudança de carreira, mas como uma evolução. Toda a minha experiência prévia na fonoaudiologia é um acúmulo que agora se integra à medicina”, explica.
A estudante faz parte de um grupo cada vez mais visível nas universidades. Na São Leopoldo Mandic, por exemplo, 10% dos alunos de medicina têm mais de 35 anos, número acima da média nacional. Para o Dr. Guilherme Succi, coordenador do curso, esses estudantes transformam o ambiente acadêmico. “Eles chegam com bagagem de vida, experiência profissional em outras áreas e uma determinação que inspira os mais jovens. Enquanto muitos jovens ainda estão descobrindo sua vocação, esses estudantes já sabem exatamente por que escolheram a medicina e o que esperam da profissão”, observa.
Expectativa de vida e novos projetos
Com a expectativa de vida do brasileiro chegando a 76,4 anos, segundo o IBGE, o tempo deixou de ser um limitador para novas formações. O coordenador explica que muitos desses profissionais buscam na medicina uma combinação entre propósito e estabilidade. “A medicina atrai esses profissionais por oferecer tanto realização pessoal quanto segurança financeira. Muitos vêm de áreas saturadas ou que já não oferecem desafios”, analisa Succi.
No entanto, o recomeço exige dedicação integral. Fernanda viveu isso na prática: “Não consegui conciliar minha carreira anterior, o curso de medicina é intenso. Decidi me dedicar totalmente a ele e aproveitei essa oportunidade ao máximo”, relata.
Desafios e recompensas
De acordo com Succi, o principal obstáculo para quem decide ingressar na graduação após os 35 anos é retomar a rotina de estudos. “É preciso criar um plano de estudos consistente para enfrentar o vestibular, que é um dos mais concorridos do país. Os cursos preparatórios são aliados importantes nesse processo”, orienta.
Mesmo diante de uma jornada exigente, o especialista destaca o impacto positivo que a maturidade traz à profissão. “Esses alunos lidam com a chamada pressão do relógio biológico profissional, já que terão carreiras mais curtas que os colegas mais jovens. Por outro lado, trazem uma perspectiva humana e empática enriquecida por suas experiências anteriores, o que beneficia diretamente os pacientes”, afirma.
O tempo como aliado
Para Fernanda, a escolha por começar novamente reforça que a idade não é um empecilho para realizar sonhos. “Acho que sonhos são para ser vividos. Nossa escolha profissional da adolescência não deve ser uma sentença de vida. A medicina é ampla, complexa e precisa de todos os tipos de pessoas. A diversidade é o que enriquece a ciência”, conclui.
Nas salas de aula da São Leopoldo Mandic e de outras instituições do país, essa nova geração de futuros médicos mostra que o tempo, quando aliado à vocação, pode ser o ingrediente essencial para uma carreira mais consciente e transformadora.
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