Variedades • 18:25h • 29 de setembro de 2026
Mercado Livre entra na venda de medicamentos com receita e acirra disputa com farmácias
Plataforma iniciou operação com farmácia própria e prevê integrar redes parceiras; especialista avalia que principal disputa será pela relação com pacientes que compram medicamentos de forma recorrente
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação
A entrada do Mercado Livre na venda de medicamentos com retenção de receita, incluindo antibióticos e canetas de GLP-1, abre uma nova frente de concorrência no varejo farmacêutico brasileiro. A empresa anunciou a operação na última quinta-feira (24), com vendas por uma farmácia própria em São Paulo, e também prevê integrar redes parceiras à plataforma, em um mercado no qual as vendas digitais de medicamentos já movimentaram R$ 27,5 bilhões em 2025.
Segundo as informações divulgadas, três redes deverão estar integradas até o fim de outubro e a previsão é chegar a 20 parceiras na Grande São Paulo até dezembro, com entregas em até 60 minutos. No mesmo pregão do anúncio, ações de Pague Menos, RD Saúde e Panvel fecharam em queda entre 5% e 8%. A Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) informou que questionaria a Anvisa sobre a legalidade da operação.
Para Paulo Crepaldi, Behavior Designer e CEO da ING Marketing & Training, a principal transformação não está simplesmente na chegada dos medicamentos ao marketplace. O setor farmacêutico já possui uma operação digital expressiva e, segundo ele, a disputa passa pelo controle da relação com consumidores que precisam realizar compras recorrentes.
“O que está em jogo é quem fica com a relação com o paciente que compra todo mês”, afirma.
Venda de medicamentos pela internet já movimenta bilhões
Dados da IQVIA citados pelo especialista mostram que o varejo farmacêutico faturou R$ 27,5 bilhões pelos canais digitais em 2025, crescimento de 51,9%. Pela primeira vez, as vendas online ultrapassaram 11% do faturamento do setor.
Na RD Saúde, as vendas digitais chegaram a R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026, equivalentes a 31% da receita do varejo, sendo 83% desse volume originado pelo aplicativo.
Entre os segmentos que impulsionam esse crescimento estão os análogos de GLP-1. A categoria de diabetes avançou 248,7% no digital em 2025, segundo a IQVIA. Dados divulgados pela Abrafarma apontam ainda que 2,34 milhões de canetas emagrecedoras foram comercializadas online entre janeiro e setembro de 2025, movimentando R$ 3 bilhões, quase cinco vezes o faturamento registrado no mesmo intervalo de 2024.
A diferença trazida pelo marketplace, na avaliação de Crepaldi, está no ambiente em que essa compra passa a acontecer. Em vez de o consumidor entrar especificamente no aplicativo de uma farmácia, o medicamento pode aparecer em uma plataforma utilizada também para adquirir alimentos para animais, eletrônicos, produtos de higiene e outras categorias.
Venda em marketplaces ainda envolve debate regulatório
A entrada das plataformas nesse mercado também levanta questões jurídicas e sanitárias. Segundo o material apresentado, a Lei 15.357, de março de 2026, permite que farmácias licenciadas contratem plataformas digitais para fins de logística e entrega.
Em 10 de agosto, a Anvisa revogou medidas que proibiam a venda de medicamentos em plataformas como Mercado Livre, iFood, Rappi, Shopee e Americanas. Conforme destacado pelo especialista, a revogação não representa uma autorização automática e ainda há regulamentação a ser estabelecida.
No modelo anunciado, o Mercado Livre realiza as vendas por meio da farmácia adquirida pela empresa em 2025, com farmacêutico responsável pela validação das receitas. A discussão agora envolve os limites regulatórios desse formato.
Outra preocupação apresentada pelo setor é o possível impacto sobre farmácias físicas e independentes. Crepaldi cita levantamento do instituto AXXUS divulgado pela Abrafarma segundo o qual 99,5% das farmácias independentes não possuem programa de fidelidade, diferença que pode pesar na disputa por consumidores recorrentes.
Segurança também entra na discussão
A comercialização de medicamentos pela internet ainda convive com um mercado irregular. Segundo dados apresentados pelo especialista, a Receita Federal apreendeu mais de R$ 80 milhões em canetas no primeiro semestre de 2026, contra R$ 4 milhões no mesmo período do ano anterior.
Para Crepaldi, restringir os canais regulares não necessariamente elimina a procura por esses produtos. “Fechar a porta regulada não elimina a demanda. Empurra parte dela para a porta sem farmacêutico”, afirma.
Nesse cenário, farmácias tradicionais ainda contam com ativos próprios na concorrência, como estoques próximos aos consumidores, presença de farmacêuticos, histórico de clientes e prestação de serviços. Para as redes, a discussão passa também por quais informações e etapas da relação com o consumidor permanecerão sob seu controle ao aderir aos marketplaces.
Para a indústria farmacêutica, a mudança pode atingir também a forma de exposição dos medicamentos. A tradicional disputa por espaço no ponto de venda passa a conviver com resultados de buscas, publicidade dentro das plataformas e dados relacionados ao comportamento e à recompra dos consumidores.
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