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Saúde • 16:40h • 24 de dezembro de 2025

Influência digital acelera uso de peptídeos sem evidência científica robusta

Popularização impulsionada por influenciadores digitais ocorre mais rápido que a validação científica, levantando alertas sobre uso off-label, segurança do paciente e ética médica

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Head Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1

Uso de peptídeos avança no Brasil, mas especialistas alertam para riscos e falta de evidência científica
Uso de peptídeos avança no Brasil, mas especialistas alertam para riscos e falta de evidência científica

O crescimento do uso de peptídeos com promessas de rejuvenescimento, emagrecimento, melhora hormonal e aumento de performance física tem chamado a atenção de especialistas em saúde no Brasil. A expansão acontece em um ritmo mais acelerado do que a produção de evidências científicas robustas, em um cenário marcado pelo uso off-label, ausência de aprovação regulatória para diversas indicações e questionamentos éticos sobre a segurança dos pacientes.

Segundo o Instituto GRIS, primeiro Centro Clínico Ginecológico do país, a popularização dessas terapias ocorre apesar da escassez de ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e diretrizes oficiais que sustentem muitas das indicações divulgadas. O instituto reforça que a medicina baseada em evidências deve orientar qualquer prescrição, especialmente quando envolve novas substâncias.

De acordo com Alexandra Ongaratto, médica especializada em ginecologia endócrina e climatério e diretora técnica do Instituto GRIS, parte significativa dos peptídeos vem sendo prescrita sem respaldo científico consistente. “Estamos vendo uma banalização de substâncias que ainda não passaram pelo rigor científico necessário. Medicina baseada em evidências não é uma opinião, é um compromisso com a segurança do paciente”, afirma.

Popularidade cresce mais rápido que a ciência

Apesar do apelo comercial e da forte presença nas redes sociais, a maioria dos peptídeos utilizados fora do ambiente de pesquisa carece de estudos clínicos de qualidade. Faltam dados consolidados sobre eficácia a longo prazo, perfil de segurança, dosagem ideal e potenciais efeitos adversos. Além disso, muitos desses compostos não possuem registro na Anvisa para as indicações com as quais vêm sendo promovidos.

Revisões da literatura científica internacional publicadas em periódicos especializados apontam que terapias sem evidência sólida podem provocar efeitos imprevisíveis no metabolismo, no eixo hormonal e no sistema imunológico, especialmente quando utilizadas de forma indiscriminada.

Para Alexandra, o problema não está na pesquisa científica envolvendo peptídeos, mas na forma como essas substâncias têm sido incorporadas à prática clínica fora de protocolos controlados. “Peptídeos têm potencial terapêutico, mas dentro de estudos bem conduzidos. Prescrevê-los amplamente, sem evidência clínica sólida, é expor pessoas a riscos que ainda não compreendemos completamente”, destaca.

Riscos que vão além da ineficácia

O Instituto GRIS aponta que o uso não regulamentado de peptídeos pode estar associado a uma série de riscos, incluindo reações adversas desconhecidas, interferências hormonais imprevisíveis, falta de padronização na produção e na dosagem, ausência de monitoramento farmacológico adequado e dificuldade de rastreamento de eventos adversos.

A Organização Mundial da Saúde já alertou para os perigos do uso de terapias não validadas, especialmente quando divulgadas como “naturais” ou “milagrosas”, discurso que pode gerar falsa sensação de segurança e retardar tratamentos comprovadamente eficazes.

Informação e educação como estratégia de proteção

Para os especialistas, o cenário reforça a necessidade de educação médica contínua e de informação clara para a população, sobretudo em um ambiente digital onde promessas de resultados rápidos e transformações imediatas ganham grande visibilidade.

“O paciente precisa entender que tratamento seguro é aquele respaldado por ciência. A ausência de evidência não é neutralidade, é risco”, reforça Alexandra Ongaratto.

O Instituto GRIS defende que qualquer nova terapia siga os princípios da medicina baseada em evidências, com benefício comprovado, riscos conhecidos e decisão compartilhada entre médico e paciente, como caminho para evitar práticas potencialmente nocivas e proteger a saúde da população.

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