Ciência e Tecnologia • 19:30h • 10 de agosto de 2026
IA responde, leitor não clica: avanço dos resumos ameaça uma das bases do jornalismo digital
Quando buscadores entregam respostas prontas, reportagens podem perder audiência e receita mesmo servindo de fonte; projeto no Congresso tenta definir se empresas de IA deverão remunerar conteúdos protegidos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Agência Brasil | Foto: Arquivo/Âncora1
Uma pesquisa no Google que antes terminava com um clique em uma reportagem pode agora acabar na própria página de resultados. A expansão dos resumos produzidos por inteligência artificial está mudando a maneira como as pessoas chegam às notícias e acendeu um alerta para o financiamento do jornalismo profissional no Brasil. A Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que representa 152 veículos online, aponta que um em cada quatro associados perdeu mais de 20% da audiência em 2025, enquanto o Congresso discute regras para remuneração de conteúdos utilizados por sistemas de IA.
A transformação ganhou força a partir de maio de 2024, com a chegada do AI Overviews, do Google. Em determinadas pesquisas, a ferramenta reúne informações de diferentes páginas e apresenta uma resposta diretamente ao usuário. Isso cria uma situação inédita para os produtores de conteúdo: a informação publicada por um site pode ajudar a construir uma resposta sem que o leitor necessariamente precise entrar na página que originalmente produziu aquele conteúdo.
Para o jornalismo, o clique que deixa de acontecer tem valor econômico. Grande parte dos veículos digitais depende da audiência para vender publicidade, contabilizar visualizações e financiar a produção de novas reportagens. Quanto menor o tráfego, menor pode ser a capacidade de monetização.
A notícia aparece, mas o leitor chega até quem a produziu?
Esse é um dos pontos centrais do debate. O problema não está apenas na possibilidade de uma pessoa deixar de abrir uma reportagem. Há também uma discussão sobre quanto do contexto original consegue sobreviver quando uma apuração extensa é transformada em poucas linhas geradas automaticamente.
A diretora de Relações Institucionais da Ajor, Carla Egydio, considera a queda de tráfego preocupante justamente porque ela ocorre em um mercado que já perdeu parte importante da publicidade para as grandes plataformas digitais. “Esse resumo da IA aprofunda um contexto de crise do jornalismo”, afirmou à Agência Brasil.
A questão ganha outra dimensão quando o resumo se torna suficiente para que o usuário considere sua busca encerrada. Uma manchete, um número ou uma conclusão podem chegar rapidamente à tela, enquanto explicações, contrapontos, origem dos dados e outros elementos necessários para compreender uma reportagem permanecem no conteúdo original.
Um em cada quatro veículos perdeu mais de 20% da audiência
Pesquisa da Ajor com seus associados mostrou que 25% dos veículos perderam mais de 20% de audiência em 2025. A entidade também identificou queda no tráfego proveniente de ferramentas de busca, justamente uma das portas de entrada tradicionais para sites de notícias.
O fenômeno não está restrito ao Brasil. Em maio de 2025, o Business Insider anunciou a demissão de 21% de seus funcionários em meio a uma reestruturação que considerava, entre outros fatores, sua exposição às quedas de tráfego.
É nesse cenário que surge uma pergunta ainda sem resposta definitiva: se sistemas de inteligência artificial utilizam conteúdos jornalísticos para produzir suas respostas, quem financiou a apuração original deve ser remunerado?
Congresso discute pagamento por conteúdo usado pela IA
O assunto aparece no PL 2338/2023, que estabelece um marco regulatório para a inteligência artificial no Brasil. O texto aprovado pelo Senado e atualmente em análise na Câmara prevê remuneração pelo uso de conteúdos protegidos pela legislação de direitos autorais.
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) defende a manutenção desse dispositivo. A presidente da entidade, Samira de Castro, afirma que o texto possui limitações, inclusive na transparência sobre quais conteúdos foram utilizados no treinamento dos modelos, mas considera a previsão de remuneração um avanço.
A proposta, entretanto, encontra resistência de representantes do setor de tecnologia. Organizações empresariais argumentam que as regras de direitos autorais previstas no projeto podem dificultar o treinamento de modelos brasileiros de IA e afetar investimentos no país.
O governo federal, por sua vez, tem defendido a aprovação do marco. O secretário de Direitos Autorais e Intelectuais do Ministério da Cultura, Marcos Alves de Souza, sustenta que conteúdos protegidos já estão amparados pela atual legislação autoral.
Votação deve ficar para depois das eleições
Apesar de o Marco Regulatório da IA ter sido anunciado como uma das prioridades da Câmara para o primeiro semestre de 2026, a análise não avançou como inicialmente previsto.
Segundo a assessoria do presidente da Câmara, Hugo Motta, a definição de uma data depende da apresentação do parecer pelo relator, deputado Aguinaldo Ribeiro. Diante do calendário eleitoral, a expectativa informada é de votação após as eleições de outubro.
Enquanto o Congresso discute uma solução geral, outras frentes avançam. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu em abril uma investigação sobre a conduta do Google e os impactos do uso de inteligência artificial no mercado de mídia.
Grandes grupos também começaram a negociar individualmente. Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo fecharam acordos privados com empresas de tecnologia, OpenAI e Google, respectivamente, em movimentos que mostram outro possível caminho para a relação entre produtores de notícias e desenvolvedores de IA.
Para milhares de veículos menores, porém, acordos individuais podem não estar ao alcance. E é justamente aí que o debate deixa de ser apenas tecnológico: se cada vez mais respostas chegam ao leitor sem que ele visite quem produziu a informação original, permanece aberta a questão de como financiar a apuração profissional que continua alimentando parte desse ecossistema.
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