Responsabilidade Social • 16:19h • 30 de agosto de 2026
Água, ruas e até internet: onde estão os riscos que podem atingir crianças autistas
Dificuldade para reconhecer determinados perigos pode ampliar a vulnerabilidade; prevenção envolve supervisão, adaptação dos ambientes e ensino de habilidades de segurança
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação
Fugas inesperadas, afogamentos, violência e acidentes estão entre situações que exigem atenção especial de famílias e responsáveis por crianças autistas. Algumas características individuais, como dificuldades de comunicação, percepção de perigo ou resposta a sobrecargas sensoriais, podem aumentar a vulnerabilidade e fazer da prevenção uma parte importante do desenvolvimento da autonomia.
Um dos principais alertas envolve o chamado elopement, termo usado para episódios em que a criança se afasta inesperadamente dos responsáveis ou deixa um ambiente considerado seguro. Segundo a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, esse comportamento não deve ser interpretado simplesmente como desobediência. A criança pode estar tentando escapar de um estímulo incômodo, seguindo um interesse específico ou explorando o espaço sem compreender os riscos envolvidos.
A preocupação aumenta quando a fuga ocorre perto de piscinas, rios, lagos, praias ou outros locais com água. Estudos citados pela especialista indicam que aproximadamente 71% das mortes relacionadas a episódios de elopement entre crianças autistas ocorrem por afogamento.
Água e fugas exigem prevenção específica
Em ambientes de maior risco, Mayra recomenda supervisão próxima, além de medidas como cercas em piscinas, portões trancados, alarmes em portas, pulseiras de identificação e dispositivos de localização em passeios e viagens.
Aulas de natação adaptadas também podem contribuir para a segurança. Aprender a nadar e, principalmente, a flutuar pode oferecer uma habilidade adicional em uma emergência, mas não substitui a supervisão de um adulto.
A prevenção também envolve ensinar a criança, de acordo com sua capacidade de compreensão, a reconhecer situações perigosas, identificar pessoas que podem ajudá-la, saber o que fazer caso se perca e compreender limites relacionados ao próprio corpo. Recursos visuais, histórias sociais e repetição podem auxiliar nesse processo.
Violência e internet também entram na rede de proteção
A vulnerabilidade não está restrita aos acidentes. Dependendo das características individuais, dificuldades para interpretar intenções de outras pessoas ou comunicar determinadas situações podem exigir atenção adicional para a prevenção da violência.
Com crianças e adolescentes cada vez mais presentes em jogos, aplicativos de mensagens e redes sociais, a proteção também alcança o ambiente digital. Conversas sobre privacidade, exposição de informações pessoais e contatos com desconhecidos devem acompanhar o grau de autonomia e a idade.
Espaços públicos representam outro ponto de atenção. Shoppings, parques, aeroportos, praias e grandes eventos podem reunir excesso de estímulos e mudanças de rotina. Conhecer previamente o ambiente, estabelecer pontos de encontro, utilizar identificação e explicar antecipadamente como será o passeio são estratégias que podem reduzir riscos.
Proteção não pode significar isolamento
Para a jornalista Debora Saueressig, mulher autista e mãe de Benjamin, de 8 anos, também autista, a preocupação permanente pode acabar interferindo na rotina de toda a família. O receio de uma fuga, acidente ou situação de violência pode fazer com que pais deixem de viajar ou evitem praias, parques, shoppings e outros espaços.
“Quando entendemos os riscos e aprendemos estratégias de prevenção, conseguimos substituir parte da ansiedade pelo planejamento. Isso nos dá mais segurança para sair de casa, participar da vida em sociedade e permitir que nossos filhos explorem o mundo de forma mais protegida”, afirma Debora.
Mayra Gaiato ressalta que essa responsabilidade não deve ficar concentrada exclusivamente nas famílias. Escolas, profissionais de saúde, empresas, espaços públicos e a própria comunidade também precisam estar preparados para reconhecer situações de vulnerabilidade e saber como agir.
O objetivo da prevenção, portanto, não é impedir que crianças autistas explorem ambientes e desenvolvam independência. A combinação entre habilidades de segurança, supervisão compatível com cada criança, adaptações no ambiente e uma rede de proteção preparada pode permitir justamente o contrário: ampliar experiências e autonomia com mais segurança.
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