Variedades • 17:02h • 29 de maio de 2026
Governança Climática: quando a sustentabilidade deixa de ser discurso e passa a ser cultura
Experiência em encontro internacional em Alicante mostra como sustentabilidade e governança climática ultrapassam discursos institucionais e aparecem nas escolhas urbanas, empresariais e sociais do cotidiano
Coluna | Ana Clara Vasques Gimenez | Foto: Âncora1
Participar de um evento internacional nem sempre significa apenas apresentar pesquisas ou assistir a palestras. Muitas vezes, a maior aprendizagem acontece fora das salas de apresentação, na observação de como determinadas ideias se materializam na vida cotidiana.
Durante minha participação no XV Encontro Internacional do CONPEDI, em Alicante, um tema apareceu de forma recorrente nos debates acadêmicos: a governança climática. Empresas, governos e instituições têm sido cada vez mais chamados a assumir responsabilidades concretas diante dos desafios ambientais, incorporando critérios de sustentabilidade não apenas em seus discursos, mas em suas estruturas de gestão e tomada de decisão.
O interessante foi perceber que essa preocupação não estava restrita aos painéis e grupos de trabalho. Ela parecia integrada ao próprio funcionamento da cidade.
Ao caminhar por Alicante, era possível observar a forte presença do transporte coletivo integrado, a valorização de áreas destinadas à circulação de pedestres, o incentivo ao uso de bicicletas e a preocupação com a preservação dos espaços públicos. São medidas que, isoladamente, podem parecer simples, mas que refletem escolhas institucionais e políticas voltadas para um modelo de desenvolvimento mais sustentável.
Campus da Universidade de Alicante carretera de San Vicente del Raspeig, s/n, 03690, San Vicente del Raspeig (Alicante) | Imagem: Reprodução
Essa experiência me levou a refletir sobre um aspecto que muitas vezes passa despercebido quando falamos de ESG ou de governança climática empresarial: sustentabilidade não se constrói apenas por meio de relatórios, certificações ou indicadores. Ela depende da criação de uma cultura organizacional e social capaz de transformar valores em práticas concretas.
Nas empresas, a lógica é semelhante. Governança climática não significa apenas medir emissões de carbono ou divulgar compromissos ambientais. Significa incorporar a variável climática aos processos decisórios, à gestão de riscos, aos investimentos, às cadeias produtivas e às estratégias de longo prazo. Trata-se de reconhecer que as mudanças climáticas não são apenas uma questão ambiental, mas também econômica, social e jurídica.
Os debates realizados durante o evento reforçaram uma percepção cada vez mais evidente: organizações que ignoram os impactos climáticos tendem a enfrentar riscos regulatórios, reputacionais e financeiros crescentes. Em contrapartida, aquelas que integram a sustentabilidade à sua governança fortalecem sua legitimidade social e sua capacidade de gerar valor no longo prazo.
Talvez a principal lição dessa experiência tenha sido justamente essa. A governança climática não se revela apenas nos grandes discursos ou nas metas anunciadas em conferências internacionais. Ela se manifesta nas escolhas diárias, nas políticas públicas, nos espaços urbanos e nas decisões institucionais que moldam a forma como vivemos, produzimos e nos relacionamos com o meio ambiente.
Ao final da viagem, ficou a impressão de que a sustentabilidade mais efetiva é aquela que deixa de ser uma pauta extraordinária para se tornar parte natural da rotina. E é justamente nesse ponto que governança, desenvolvimento e responsabilidade social passam a caminhar juntos.
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