Mundo • 17:07h • 07 de agosto de 2026
Golpes no delivery evoluem: imagens criadas por IA fazem clientes comerem de graça
Fraudes estão cada vez mais sofisticadas, enquanto estabelecimentos enfrentam prejuízos com cancelamentos e pedidos de reembolso obtidos de forma fraudulenta
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
Receber um pedido, consumi-lo e, depois, conseguir o reembolso por meio de uma reclamação falsa está se tornando um problema crescente para restaurantes que trabalham com aplicativos de entrega. Agora, com o avanço da inteligência artificial, criminosos passaram a manipular imagens de alimentos para simular defeitos inexistentes e convencer plataformas a cancelar pedidos, gerando prejuízos que chegam a milhares de reais para os estabelecimentos.
O tema é abordado pelo publicitário Vinícius França, apaixonado pela gastronomia, em uma análise sobre os impactos dos golpes no setor de delivery. Segundo ele, o problema deixou de ser pontual e passou a fazer parte da rotina de muitos restaurantes, principalmente daqueles que operam grande volume de pedidos.
Restaurantes produzem, entregam e ficam sem receber
Em conversa com Jonathan, chef e proprietário da hamburgueria Wolf's Burgers, em Curitiba, Vinícius relata que os cancelamentos considerados indevidos representam cerca de R$ 10 mil por ano em prejuízo para o estabelecimento. Segundo o empresário, aproximadamente 99% desses casos seriam consequência de clientes agindo de má-fé.
O prejuízo não envolve apenas o valor da venda. A comida já foi preparada, os ingredientes utilizados, a embalagem produzida e, muitas vezes, a entrega concluída. Quando o reembolso é concedido, o restaurante perde simultaneamente o produto e a receita que receberia pela venda.
Inteligência artificial criou um novo tipo de fraude
Se antes os golpes envolviam alegações falsas sobre ingredientes ou atrasos na entrega, a inteligência artificial elevou o nível da fraude.
Segundo a análise, criminosos passaram a utilizar ferramentas capazes de inserir digitalmente insetos, alterar a aparência dos alimentos ou simular deterioração em fotografias, criando imagens extremamente convincentes para solicitar reembolsos às plataformas.
Um dos casos citados ocorreu no Paraná, quando uma imagem adulterada com uma barata inserida artificialmente em um hambúrguer viralizou nas redes sociais. Outro episódio, registrado em 2026, mostrou uma fotografia de frango aparentemente estragado produzida integralmente por inteligência artificial, levando ao reembolso automático antes mesmo de qualquer análise humana.
Como essas ferramentas estão disponíveis gratuitamente e funcionam em celulares comuns, especialistas alertam que a tendência é de crescimento desse tipo de fraude.
O restaurante acaba assumindo um problema que não criou
Embora a compra seja realizada entre consumidor e plataforma de delivery, quem normalmente absorve o prejuízo é o restaurante.
Segundo o coordenador de delivery da Esfiha Imigrantes, citado por Vinícius França, a responsabilidade pela análise das reclamações deveria ser da própria plataforma, já que é ela quem administra a transação financeira.
Na prática, porém, os estabelecimentos precisam reunir provas, contestar cancelamentos e documentar ocorrências para tentar recuperar valores que, muitas vezes, acabam sendo definitivamente perdidos.
O desafio aumenta nos restaurantes com grande movimento. Em operações que chegam a milhares de pedidos por dia, fotografar individualmente cada entrega antes do envio torna-se operacionalmente inviável.
Fraudes podem ter consequências criminais
Sob o aspecto jurídico, a fabricação de reclamações falsas para obter reembolso pode configurar estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal.
Caso imagens adulteradas sejam utilizadas em processos judiciais, ainda podem surgir discussões relacionadas ao uso de documento falso e à fraude processual.
O problema, entretanto, é produzir provas. Como o alimento normalmente já foi consumido quando a fraude é descoberta, a principal evidência restante passa a ser digital, exigindo perícia especializada para identificar manipulações feitas por inteligência artificial.
Outro obstáculo apontado pelo autor é que, em muitos processos judiciais, a conversão obrigatória das imagens em arquivos PDF elimina metadados que poderiam ajudar na identificação da origem da fotografia.
Como os restaurantes estão reagindo
Diante desse cenário, muitos estabelecimentos passaram a adotar medidas preventivas, como documentar o máximo possível da produção, monitorar perfis com histórico de cancelamentos e contestar todas as reclamações que apresentem indícios de fraude.
Nos casos em que há suspeita de manipulação por inteligência artificial, a recomendação também inclui o registro de boletim de ocorrência, criando um histórico que poderá auxiliar futuras investigações e eventuais pedidos de ressarcimento.
Enquanto isso, as plataformas informam que utilizam sistemas de inteligência artificial e aprendizado de máquina para identificar padrões suspeitos de comportamento e bloquear usuários envolvidos em fraudes. Para especialistas do setor, porém, o avanço das ferramentas utilizadas pelos criminosos mostra que os mecanismos de proteção ainda precisam evoluir para equilibrar melhor a relação entre consumidores, aplicativos e restaurantes.
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