Economia • 11:37h • 15 de agosto de 2026
Golpes digitais atingiram brasileiros mais de 200 vezes por ano e prejuízo chega a R$ 21,2 bilhões
Relatório internacional estima 34 bilhões de tentativas de fraude em 12 meses; 16,5 milhões de brasileiros perderam dinheiro e um terço das vítimas sofreu prejuízo mais de uma vez
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Ryto Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
O brasileiro adulto foi alvo, em média, de 201,6 tentativas de golpes digitais em apenas 12 meses. A estimativa faz parte do relatório O Estado dos Golpes no Brasil 2026, divulgado pela Global Anti-Scam Alliance (GASA), e dimensiona um problema que já alcança bilhões de abordagens: aproximadamente 34 bilhões de tentativas de fraude entre março de 2025 e fevereiro de 2026.
O levantamento, apresentado em 6 de agosto durante o Brazil Anti-Scam Forum, em São Paulo, estima ainda que 16,5 milhões de brasileiros perderam dinheiro para golpistas, somando prejuízos próximos a R$ 21,2 bilhões. A perda média calculada foi de R$ 1.287 por pessoa.
A recorrência chama atenção. Entre aqueles que tiveram prejuízo, 34% perderam dinheiro mais de uma vez no período analisado. Além disso, 42% das vítimas viram os valores serem subtraídos em questão de minutos ou horas.
O golpe chega pelo telefone e pelas mensagens
A pesquisa ouviu mais de mil pessoas no Brasil e integra um levantamento realizado em mais de 40 países. Segundo os resultados, 81% dos adultos brasileiros tiveram contato com alguma tentativa de golpe, mesmo percentual registrado na edição anterior, enquanto 39% chegaram a interagir com os fraudadores.
Entre aqueles que interagiram, uma em cada quatro pessoas perdeu dinheiro ou forneceu informações que posteriormente resultaram em prejuízo financeiro.
Telefone e aplicativos de mensagens instantâneas aparecem como os principais meios utilizados para disseminar as fraudes, concentrando 71% dos casos.
Entre as plataformas mencionadas pelas vítimas, o WhatsApp aparece na liderança, com 64%, seguido pelo Gmail, com 32%, e Instagram, com 22%. O YouTube, citado por 6%, apareceu entre as novidades do levantamento deste ano.
Os tipos de fraude também revelam situações bastante presentes na rotina digital. Golpes relacionados a compras online lideram, com 22%, enquanto promessas de dinheiro inesperado e falsas oportunidades de emprego aparecem empatadas, com 17% cada.
Um terço das vítimas perdeu dinheiro mais de uma vez
Para a diretora do capítulo brasileiro da GASA, Renata Salvini, a reincidência das perdas mostra que a vulnerabilidade não necessariamente termina depois da primeira fraude.
“Os golpes digitais passaram a fazer parte da rotina. O fato de 1/3 das pessoas terem perdido dinheiro mais de uma vez em um intervalo de 12 meses é especialmente preocupante, porque destaca um ciclo de vulnerabilidade encorajado pelos criminosos”, afirma.
Segundo ela, prevenção, educação e rapidez na resposta precisam envolver empresas, plataformas digitais, instituições financeiras, autoridades e sociedade civil.
Quatro em cada dez têm dificuldade para reconhecer uma fraude
A dimensão do problema não está apenas na quantidade de tentativas. 41% dos entrevistados disseram não se sentir confiantes para identificar um golpe, enquanto duas em cada cinco pessoas afirmaram confiar na própria capacidade de reconhecê-lo.
Mesmo depois de sofrer uma fraude, a identificação pode demorar. Em 2026, 40% das vítimas disseram ter percebido o golpe somente depois de serem avisadas por outra pessoa ou instituição. Na edição anterior da pesquisa, eram 34%.
A dificuldade ganha importância diante da velocidade com que o dinheiro pode desaparecer. Em muitos casos, bastam minutos ou poucas horas entre o contato com o criminoso e a concretização do prejuízo.
Só 20% recuperaram ao menos parte do dinheiro
A recuperação dos valores permanece baixa. Entre as pessoas que comunicaram suas perdas, somente 20% afirmaram ter recebido de volta total ou parcialmente o dinheiro, por meio da organização à qual fizeram a denúncia.
Na percepção dos entrevistados, bancos, meios de pagamento e corretoras de criptomoedas estão entre as instituições mais bem avaliadas na prevenção e resolução das fraudes. A Febraban estima investimentos anuais de R$ 5 bilhões em segurança e prevenção a golpes.
A polícia aparece na sequência da avaliação, depois de ter ficado fora das três primeiras posições no levantamento de 2025. Já as operadoras de telecomunicações receberam a pior avaliação entre as instituições analisadas.
Vergonha e falta de informação também dificultam denúncias
Outro obstáculo é fazer com que os casos cheguem às instituições responsáveis. No Brasil, 19% das vítimas não denunciaram o golpe sofrido.
No recorte latino-americano, metade das vítimas que não denunciou afirmou não saber a quem recorrer. Também aparecem entre as justificativas a percepção de que o registro não faria diferença, apontada por 36%, a complexidade do processo, com 28%, além da vergonha e do receio de exposição.
A GASA destaca que as denúncias ajudam não somente na investigação individual, mas também na identificação de padrões criminosos, bloqueio de contas, derrubada de perfis falsos e prevenção de novas vítimas.
Impacto dos golpes vai além dos R$ 21,2 bilhões
O relatório também mediu uma consequência que não aparece diretamente na conta bancária. 76% das vítimas relataram impacto significativo ou moderado sobre o próprio bem-estar mental, ante 59% na edição anterior.
Segundo Renata Salvini, situações desse tipo podem provocar ansiedade e desconfiança constante, mostrando que a fraude digital também produz consequências emocionais.
Os números financeiros apresentados nesta edição não podem ser comparados diretamente aos R$ 99 bilhões estimados pelo levantamento de 2025. A própria GASA informa que houve mudança de metodologia, com validação dos valores declarados, filtros adicionais para respostas inconsistentes e confirmação das perdas mais elevadas.
Ainda assim, a dimensão encontrada em 2026 é expressiva: 34 bilhões de tentativas, 16,5 milhões de pessoas com perdas e R$ 21,2 bilhões em prejuízos. Em um ambiente no qual uma fraude pode ser concretizada em minutos e parte das vítimas sequer percebe imediatamente que caiu em um golpe, reconhecer a abordagem antes de interagir com o criminoso tornou-se uma das principais barreiras entre uma tentativa e um prejuízo real.
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