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Ciência e Tecnologia • 10:11h • 14 de fevereiro de 2026

Fungo da Amazônia mostra potencial para cosméticos sustentáveis

Extrato vermelho produzido com Talaromyces amestolkiae foi testado em bases de possíveis produtos, como creme facial, xampu e bastão de gel, com ação antioxidante e antibacteriana

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Governo de SP

Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (FCFar-Unesp)
Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (FCFar-Unesp)

Testes iniciais com um corante natural produzido pelo fungo Talaromyces amestolkiae, encontrado na Amazônia, indicam a possibilidade de desenvolver cosméticos ecológicos, como cremes faciais, bastões em gel e xampus, com propriedades antioxidantes e antibacterianas. A descoberta abre caminho para alternativas sustentáveis aos corantes sintéticos, ainda predominantes na indústria cosmética.

O fungo produz pigmentos vibrantes que variam do amarelo ao vermelho intenso e apresentam elevado potencial de aplicação industrial. Nos últimos anos, diversos países passaram a restringir ou proibir o uso de determinados corantes sintéticos, associados a reações alérgicas e outros riscos à saúde, o que tem ampliado a demanda por produtos considerados mais seguros e ambientalmente responsáveis.

De acordo com os resultados do estudo, o extrato do fungo foi capaz de reduzir em mais de 75% as substâncias que reagem com o oxigênio ao entrar em contato com a pele, diminuindo compostos associados a danos celulares. Os testes também indicaram que mais de 60% das células permaneceram viáveis, o que sugere que o produto não compromete a saúde da pele. Os dados foram publicados na revista científica ACS Omega.

A pesquisa foi conduzida por Juliana Barone Teixeira, sob orientação de Valéria de Carvalho Santos-Ebinuma, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (FCFAr-Unesp), em Araraquara, em parceria com Joana Marques Marto, da Universidade de Lisboa. O trabalho contou ainda com a colaboração de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP) e com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Segundo Teixeira, os testes demonstraram que o corante pode ser incorporado a formulações cosméticas sem comprometer segurança, textura ou desempenho do produto final. “Conseguimos mostrar que o colorante mantém a funcionalidade e a experiência do consumidor, sem impactos negativos na formulação”, afirma.

A professora Ebinuma destaca que o interesse pelo fungo surgiu inicialmente pela coloração intensa. “Foram mais de dez anos de estudos até chegarmos a essa etapa de produção”, relata. De acordo com as pesquisadoras, estudos de mercado indicam que a cor é um dos principais fatores que influenciam a decisão de compra de cosméticos, o que reforça o potencial comercial do pigmento natural.

A descoberta do Talaromyces amestolkiae ocorreu ainda durante o doutorado de Ebinuma, a partir de pesquisas conduzidas em parceria com a professora Maria Francisca Simas Teixeira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), referência nacional em micologia. O fungo foi encontrado em árvores do campus da universidade e incorporado a uma coleção científica, passando a despertar o interesse de pesquisadores pela capacidade de produzir diferentes tonalidades de corantes.

Atualmente, cerca de 20 estudantes de graduação e pós-graduação participam das pesquisas, que avançam em diferentes frentes, incluindo aplicações em tecidos e alimentos. O próximo desafio, segundo Ebinuma, é ampliar a escala de produção do corante. “Hoje conseguimos produzir cerca de 1 grama, mas o objetivo é chegar a 10 gramas. Para isso, estamos estudando quais caminhos tecnológicos podem viabilizar essa ampliação”, explica.

Para as pesquisadoras, o trabalho reforça a importância de investir no estudo da biodiversidade amazônica. “Há muito ainda a ser descoberto, e outras espécies com potencial semelhante podem existir”, conclui Ebinuma.

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