Ciência e Tecnologia • 13:18h • 04 de outubro de 2026
Fumo passivo na infância pode alterar esmalte dos dentes sem deixar sinais visíveis, aponta USP
Pesquisa com ratos identificou alterações microscópicas e químicas no esmalte após exposição precoce ao fumo passivo, mesmo quando os dentes pareciam normais a olho nu
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Agência Fapesp | Foto: Arquivo/Âncora1
A exposição passiva à fumaça do cigarro nos primeiros dias de vida pode interferir na formação do esmalte dentário e provocar alterações que não são percebidas visualmente. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em modelo animal, encontrou mudanças microscópicas e químicas nos dentes de ratos expostos precocemente à fumaça, incluindo redução de fósforo e aumento de carbono no esmalte. Os resultados foram publicados na revista científica Calcified Tissue International.
A pesquisa foi desenvolvida na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da USP (Forp-USP), com apoio da FAPESP, durante o doutorado de Juliana de Lima Gonçalves. O trabalho integra uma linha coordenada pelo professor Francisco Wanderley Garcia de Paula-Silva que investiga como exposições ao álcool, tabaco e estresse no início da vida podem afetar o desenvolvimento do organismo.
Uma das características que tornam os dentes relevantes para esse tipo de investigação é que o esmalte pode funcionar como uma espécie de registro de acontecimentos ocorridos durante sua formação. Diferentemente do osso, que continua passando por remodelação ao longo da vida, o esmalte formado naquele período permanece sem esse processo.
A formação começa ainda durante a gestação, especialmente nos dentes de leite, enquanto uma parcela importante da mineralização dos dentes permanentes ocorre durante a infância. Por isso, os primeiros anos representam uma fase importante para a formação e maturação dessa estrutura.
Cinco minutos de exposição, duas vezes ao dia
Para investigar os efeitos do fumo passivo, os pesquisadores dividiram filhotes de ratos em dois grupos. Um deles foi colocado em uma caixa de acrílico e exposto de maneira controlada à fumaça de cigarro durante cinco minutos, duas vezes por dia, do segundo ao 28º dia de vida. O outro permaneceu sem exposição.
Os cientistas acompanharam peso, crescimento corporal e desenvolvimento dentário. Os animais submetidos à fumaça apresentaram menor ganho de peso em comparação ao grupo de controle, resultado que acompanha evidências anteriores sobre os efeitos do fumo passivo no crescimento.
Nos dentes, porém, a primeira observação trouxe um resultado diferente. A olho nu, não foram identificadas alterações importantes entre os dois grupos. As diferenças apareceram quando os pesquisadores avançaram para análises químicas e microscópicas do esmalte.
Foi identificado maior espaço entre os prismas do esmalte, estruturas microscópicas responsáveis pela organização de sua composição mineral. Os animais expostos também apresentaram redução dos níveis de fósforo e aumento da quantidade de carbono.
Mudanças atingiram a composição do esmalte
O fósforo faz parte da hidroxiapatita, molécula relacionada à dureza do esmalte dentário. Segundo os pesquisadores, mudanças nessa composição podem interferir em propriedades mecânicas dos dentes, incluindo resistência ao desgaste e a fraturas.
O aumento de carbono também chamou a atenção porque o esmalte é uma estrutura altamente mineralizada e possui quantidade muito pequena de matéria orgânica. A presença maior desse elemento pode indicar alteração na composição do tecido.
Apesar dessas diferenças, os testes não identificaram redução da dureza inicial do esmalte. Uma possível explicação considerada pelos pesquisadores é a pouca idade dos animais. Eles foram desmamados aos 21 dias e o experimento terminou apenas uma semana depois, período em que os dentes ainda haviam sido pouco utilizados.
A dúvida agora é se as mudanças químicas encontradas poderão comprometer a resistência dos dentes conforme eles sejam submetidos ao uso ao longo do tempo.
Nova etapa terá exposição maior à fumaça
O grupo já iniciou uma nova fase do estudo. Desta vez, os animais estão sendo expostos à fumaça por aproximadamente uma hora, duas vezes ao dia, para avaliar se uma carga maior provoca alterações mais evidentes e defeitos semelhantes aos encontrados em humanos.
Os cientistas também querem descobrir em qual etapa da formação dentária a fumaça exerce maior influência. Os resultados obtidos até agora sugerem efeito principalmente durante a mineralização e maturação do esmalte, já que não houve alteração em sua espessura.
Embora o experimento tenha sido realizado com ratos e seus resultados não possam ser diretamente transferidos para seres humanos, os pesquisadores consideram que os achados podem contribuir para a investigação das causas de problemas de formação do esmalte observados em crianças.
Um deles é a hipomineralização molar-incisivo, condição que, segundo o estudo, atinge cerca de uma em cada cinco crianças e pode deixar o esmalte mais vulnerável a fraturas e cáries. Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que o trabalho não estabelece uma relação direta entre fumo passivo e essa condição em humanos.
A descoberta levanta uma nova possibilidade para futuras pesquisas sobre os impactos da exposição precoce ao cigarro. Além dos efeitos já associados ao desenvolvimento infantil, os dentes podem conservar sinais de exposições ocorridas em uma fase da vida que a própria pessoa sequer consegue recordar.
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