Educação • 14:58h • 29 de setembro de 2026
Foi em Assis que Antonio Candido viveu uma virada decisiva em sua trajetória intelectual
Entre 1958 e 1960, sociólogo e crítico literário encontrou na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras a oportunidade de se dedicar à pesquisa e, pela primeira vez, ao ensino universitário de literatura
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Unesp | Foto: Eduardo Ayrosa/Cedap Assis
A passagem de Antonio Candido (1918-2017) por Assis durou poucos anos, mas marcou uma transformação importante na trajetória de um dos principais intelectuais brasileiros. Entre 1958 e 1960, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (FFCL), posteriormente incorporada à Unesp, o sociólogo encontrou condições para uma intensa dedicação à pesquisa e teve sua primeira experiência como professor universitário de literatura e teoria literária.
A mudança para o interior ocorreu em um momento de impasse profissional. Candido integrava desde 1942 o quadro docente da Universidade de São Paulo (USP), onde ensinava Sociologia, sua área de formação. Em 1957, durante uma licença da universidade, recebeu de Antonio Soares Amora, então diretor da FFCL, o convite para participar da implantação da nova instituição em Assis.
No início de 1958, Candido passou a participar das sessões de organização da faculdade e mudou-se para Assis no segundo semestre. A decisão de deixar a capital surpreendeu amigos. A FFCL começou a funcionar em 1959 e, naquele mesmo ano, sua esposa, a professora Gilda de Mello e Souza, e as filhas do casal também passaram a viver na cidade.

O “Pacto do Silêncio” das manhãs em Assis
A rotina acadêmica criada naquele período favoreceu uma dedicação ao trabalho intelectual que Candido ainda não havia experimentado daquela maneira. Pela manhã, os professores reservavam horas aos próprios estudos. À tarde, dedicavam-se às aulas e ao atendimento dos estudantes.
Em entrevista ao professor e pesquisador Fábio Ruela de Oliveira, reproduzida no livro “História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (1958-1964)”, Candido contou que propôs aos colegas o chamado “Pacto do Silêncio”.
“A ideia era conversar o menos possível um com o outro e trabalhar, produzir. O resultado de nós passarmos quatro horas, todas as manhãs, lendo, tomando nota, preparando aula, escrevendo, era um rendimento extraordinário”, recordou.
A experiência também foi destacada décadas depois por sua filha, a escritora e designer Ana Luísa Escorel. No artigo “Antonio Candido e Assis”, publicado na revista Miscelânea, da FCL-Unesp, ela definiu a passagem pela cidade como decisiva tanto para a vida intelectual quanto para a vida privada do pai.
“A cidade e, particularmente, a Faculdade de Letras de Assis tiveram papel decisivo na vida intelectual e na vida privada de meu pai, tendo permitido a ele uma ruptura positiva e o início de nova etapa tanto na esfera profissional quanto na esfera doméstica de sua trajetória”, escreveu.

Assis abriu caminho para o ensino de literatura
Segundo Ana Luísa, a mudança em 1958 proporcionou a Antonio Candido a possibilidade de se concentrar de maneira praticamente exclusiva no trabalho intelectual, algo que até então ele não havia vivenciado.
Para Paulo Henrique Martinez, historiador e professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Assis, outro aspecto foi determinante. “O que Assis proporcionou a Antonio Candido foi a experiência do ensino da literatura e da teoria literária na universidade”, afirma.
Martinez analisou esse período no artigo “Estação de muda: Antonio Candido em Assis (1958-1960)”. Para o pesquisador, a transição para a literatura não significou necessariamente um abandono da sociologia. As duas áreas continuaram presentes na produção intelectual de Candido, tendo como ponto de aproximação a valorização da dimensão humana.
A relação construída naquele período permaneceu na história da instituição. A antiga FFCL foi incorporada à Unesp em 1976 e deu origem à atual Faculdade de Ciências e Letras do câmpus de Assis. Em 1988, Antonio Candido recebeu o título de professor emérito da unidade, três décadas depois do início da experiência que ajudou a redefinir sua trajetória profissional.
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