Responsabilidade Social • 14:56h • 27 de novembro de 2025
Floresta em pé: lavoura e árvores reduzem impacto de mudança climática
Sistema combina produção agrícola com preservação ambiental
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Yago Fagundes/Divulgação
Imagine um espaço onde lavouras e florestas dividem o mesmo terreno — como uma plantação de milho crescendo à sombra de uma castanheira-do-pará.
Essa integração entre agricultura e preservação ambiental tem sido apontada por especialistas e ativistas como um dos caminhos mais promissores para recuperar o planeta dos impactos provocados pela ação humana, refletidos em eventos extremos como chuvas intensas e longas estiagens. Esse modelo de uso sustentável da terra é conhecido como agrofloresta.
A agrofloresta transforma áreas abertas e sistemas de monocultivo em ambientes biodiversos, buscando produzir alimentos sem agrotóxicos e com base nos princípios da própria natureza. A lógica é simples: combinar plantas menores com árvores grandes e de raízes profundas, que fornecem sombra e ajudam a armazenar água no solo. Isso também reduz emissões de dióxido de carbono, já que mais árvores significam maior absorção de carbono e menos gases nocivos na atmosfera.
Em entrevista ao podcast S.O.S! Terra Chamando!, o engenheiro agrônomo e secretário do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Moisés Savian, explica que a agrofloresta atua em duas frentes: mitiga mudanças climáticas ao reduzir emissões e favorece a adaptação das lavouras aos extremos climáticos. Ele lembra que integrar lavouras a árvores melhora a resiliência da produção e contribui para combater a fome ao gerar renda e alimentos.
O interesse pelo tema cresceu durante a COP 30, em Belém (PA), mas especialistas como o climatologista Carlos Nobre ressaltam que essa técnica tem raízes ancestrais. Povos indígenas da Amazônia, há milhares de anos, desenvolveram formas de viver e produzir em harmonia com a floresta, utilizando milhares de espécies alimentares e medicinais.
Apesar do caráter tradicional, a agrofloresta tem ganhado força entre voluntários e projetos comunitários. Em Botuporã, no interior da Bahia, um programa de cooperação com cidades da França promove a troca de conhecimentos sobre práticas sustentáveis. O jovem estudante Yago Fagundes participou de uma imersão na França, onde aprendeu técnicas agroecológicas aplicadas depois no Brasil, como produção de queijos artesanais sustentáveis e fortalecimento da biodiversidade.
Para ele, a agroecologia torna o solo mais fértil, aumenta a retenção de água e cria redes de solidariedade internacional diante da crise climática. Em contrapartida, voluntários franceses também vieram ao Brasil aprender agricultura orgânica e compartilhar experiências.
Histórias individuais também mostram como a agroecologia se incorpora ao cotidiano. O jornalista socioambiental Wylliam Torres, do Rio de Janeiro, cultiva verduras no quintal, prática inspirada pelas avós. Para ele, agroecologia é mais do que alimento sem agrotóxicos: é território, memória e consciência ambiental — valores que reforçam a luta coletiva pela vida no planeta.
Para o Ministério do Desenvolvimento Agrário, a COP 30 foi uma oportunidade de apresentar ao mundo a estratégia brasileira de florestas produtivas. Savian defende sistemas agrícolas resilientes, capazes de enfrentar secas e chuvas extremas, e a recuperação de áreas degradadas por meio de agroflorestas. Ele destaca ainda a importância de incentivos financeiros para pequenos produtores e da participação do mercado consumidor, que começa a valorizar "produtos da floresta" com pagamento antecipado para agricultores.
Segundo Savian, a Floresta em Pé é parte essencial da resposta à emergência climática, aliada à restauração florestal, ao fim do desmatamento e à pecuária mais eficiente. Não é uma solução imediata, afirma ele, mas um tratamento contínuo — pequenas doses constantes que, no conjunto, podem fazer grande diferença para o futuro do planeta.
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