Saúde • 10:18h • 09 de agosto de 2026
Estudo sobre hepatites virais traça panorama da doença em onze anos
Objetivo é traçar metas para eliminar a doença até 2030
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
Pesquisadores do Einstein Hospital Israelita analisaram 200 estudos científicos publicados entre 2013 e 2024, reunindo dados de mais de 14,5 milhões de pessoas para traçar um panorama das hepatites virais no Brasil. O levantamento integra o projeto Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas, desenvolvido no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), com o objetivo de fortalecer estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento e contribuir para que o país alcance a meta de eliminar as hepatites virais até 2030. Os resultados foram publicados na revista científica PLOS ONE.
O estudo avaliou informações sobre todas as hepatites virais: A, B, C, D e E. Segundo o coordenador da pesquisa, João Renato Rebello Pinho, médico do Departamento de Patologia Clínica do Einstein, embora as hepatites B e C sejam as mais conhecidas por sua elevada frequência e potencial de cronificação, as demais também exigem atenção devido aos riscos que representam para a saúde pública.
No caso da hepatite A, o estudo reforça a importância da vacinação. Tradicionalmente associada ao consumo de água e alimentos contaminados, a doença voltou a apresentar crescimento no Brasil, principalmente entre adultos, em razão da transmissão por práticas sexuais com contato oral-anal. Inicialmente concentrada entre homens que fazem sexo com homens, a infecção passou a atingir também outras pessoas não vacinadas. O especialista ressalta que a hepatite A não é transmitida por contato casual, como apertos de mão ou convivência em ambientes públicos, mas exige contato íntimo ou exposição a material contaminado.
A pesquisa também mostra diferenças regionais. A hepatite A continua sendo mais frequente nas regiões Norte e Nordeste devido às condições de saneamento, enquanto casos relacionados à transmissão sexual são mais observados nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
As hepatites B e C continuam sendo as formas crônicas mais preocupantes, principalmente pela relação com cirrose e câncer de fígado. A principal forma de transmissão é sexual, embora também possa ocorrer pelo contato com sangue contaminado e, em menor escala, da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto. O pesquisador destaca que o Brasil avançou significativamente na prevenção da transmissão vertical da hepatite B.
A vacinação continua sendo a principal forma de prevenção da hepatite B. Já para a hepatite C, que não possui vacina, existem tratamentos capazes de curar mais de 95% dos pacientes. Ainda assim, a recomendação é adotar medidas preventivas, como sexo seguro e evitar contato com sangue contaminado.
A hepatite D, também chamada de Delta, permanece concentrada principalmente na região amazônica e afeta exclusivamente pessoas infectadas pelo vírus da hepatite B. Segundo o estudo, trata-se de uma doença negligenciada, com elevada gravidade e mortalidade, especialmente em populações ribeirinhas de difícil acesso aos serviços de saúde. Como a vacinação contra hepatite B também protege contra a hepatite D, ampliar a cobertura vacinal é considerado fundamental para reduzir sua ocorrência.
Já a hepatite E ainda é pouco conhecida no Brasil. Diferentemente da hepatite A, ela é considerada uma zoonose, sendo transmitida principalmente por animais, especialmente suínos. O estudo identificou maior ocorrência da doença na Região Sul, onde há concentração da criação de porcos. Embora normalmente provoque quadros agudos mais leves, os pesquisadores defendem que ela seja mais investigada no país.
Entre os resultados do levantamento, a hepatite B foi a mais estudada, seguida pela hepatite C. A prevalência da hepatite A na população geral variou entre 33,3% e 67,8%, enquanto a hepatite B apresentou índices entre 0% e 7,5%, com maiores taxas em áreas da Amazônia. A hepatite C variou de 0,04% a 2,2% na população geral, mas alcançou 36,9% entre pessoas que usam drogas. A hepatite D apresentou prevalência de até 23,9% na região amazônica, enquanto a hepatite E variou de 0,9% a 59,4%, com maior frequência na Região Sul.
Os pesquisadores afirmam que o levantamento poderá orientar gestores públicos, profissionais de saúde e pesquisadores na formulação de políticas voltadas à prevenção, diagnóstico e tratamento das hepatites virais, contribuindo para o cumprimento da meta de eliminação dessas doenças até 2030.
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