Ciência e Tecnologia • 10:44h • 31 de outubro de 2026
Estudo da USP revela como ondas de calor afetam o cérebro e elevam risco de derrame
Pesquisa identifica aumento de 40,4% na razão de chances de AVC sob exposição prolongada ao calor e à poluição; exercícios físicos e controle cardiovascular ajudam a proteger o cérebro
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações do Governo de SP | Foto: Divulgação
Ondas de calor associadas à poluição do ar podem elevar significativamente o risco de acidente vascular cerebral (AVC) em pessoas com 65 anos ou mais. A conclusão faz parte de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), com dados da capital paulista, apresentado durante a FAPESP Week Países Baixos, realizada em outubro de 2026. Os resultados preliminares apontam que cada dia adicional de exposição simultânea ao calor intenso e à poluição está associado a um aumento de 40,4% na razão de chances de AVC agudo entre idosos.
A pesquisa considerou como onda de calor períodos de pelo menos dois dias consecutivos com temperaturas máximas iguais ou superiores a 33,1ºC. O risco se mostrou maior quando essas condições ocorreram juntamente com concentrações elevadas de material particulado PM10, formado por partículas presentes na poeira e na poluição produzida, entre outras fontes, pela queima de combustíveis.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram dados de 769 pacientes diagnosticados com AVC, dos quais 65,5% tinham 65 anos ou mais. Foram comparadas as condições meteorológicas e a qualidade do ar nos dias anteriores aos episódios registrados entre 2006 e 2018. A análise identificou uma razão de chances de 1,121 para a exposição ao calor isoladamente, que subiu para 1,404 quando considerada sua interação com a poluição atmosférica.
Por que o calor intenso pode provocar um AVC?
Segundo Alessandra Carvalho Goulart, professora da Faculdade de Medicina da USP e responsável pela apresentação dos resultados, o calor excessivo provoca alterações que comprometem o funcionamento do sistema cardiovascular.
A exposição prolongada a temperaturas elevadas favorece a desidratação, reduz a quantidade de líquido no sangue e aumenta sua viscosidade. Essas mudanças podem afetar a circulação sanguínea, a pressão arterial e a capacidade do organismo de regular a própria temperatura, contribuindo para desencadear eventos vasculares agudos.
Os resultados reforçam a necessidade de atenção à saúde dos idosos durante períodos de calor intenso, especialmente em ambientes urbanos com maior concentração de poluentes. Embora a pesquisa tenha utilizado dados de São Paulo, os mecanismos fisiológicos relacionados ao calor também são relevantes para populações de outras cidades.
Exercícios físicos podem reduzir em até 22% o risco de lesões cerebrais
Outra investigação da USP, vinculada ao Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), identificou benefícios da atividade física para a preservação da saúde cerebral.
Em uma amostra de aproximadamente 1.200 participantes, pesquisadores observaram que níveis moderados a elevados de exercício físico estavam associados à redução de 21% a 22% no risco de apresentar marcadores da doença de pequenos vasos cerebrais, condição relacionada ao declínio cognitivo e à demência.
A atividade física também esteve associada à diminuição de 21% a 30% no risco de atrofia do córtex entorrenal, região do cérebro fundamental para a memória e a orientação espacial.
Em outra análise, com 1.285 participantes acompanhados entre 2008 e 2024, a equipe avaliou oito indicadores de saúde cardiovascular, incluindo alimentação, exercícios, sono, tabagismo, peso corporal, colesterol, glicemia e pressão arterial. Cada aumento de dez pontos no indicador utilizado esteve associado à redução de 14% na chance de desenvolver lesões graves nos pequenos vasos cerebrais.
Como proteger a saúde cerebral durante o envelhecimento?
Os resultados destacam a importância de combinar cuidados cardiovasculares com medidas de proteção durante períodos de calor extremo. Entre as principais recomendações preventivas estão manter a hidratação, evitar exposição prolongada às altas temperaturas, praticar atividades físicas adequadas às condições individuais e acompanhar regularmente a pressão arterial, a glicemia e o colesterol.
A prática de exercícios deve respeitar as condições de saúde de cada pessoa, especialmente em dias muito quentes, quando o esforço físico excessivo pode aumentar a sobrecarga cardiovascular.
Os pesquisadores também investigam alternativas para o tratamento de doenças neurodegenerativas. Um grupo da USP, liderado pelo professor Orestes Forlenza, estuda há mais de duas décadas os possíveis efeitos neuroprotetores do lítio em pacientes com comprometimento cognitivo leve e risco de Alzheimer.
Ensaios clínicos com doses inferiores às utilizadas tradicionalmente na psiquiatria apresentaram resultados promissores na estabilização de perdas cognitivas. Entretanto, o uso do lítio para essa finalidade permanece em investigação e não deve ser realizado sem indicação e acompanhamento médico.
Para os pesquisadores, a combinação entre envelhecimento populacional, mudanças climáticas e poluição torna a prevenção cardiovascular cada vez mais importante. Os estudos indicam que hábitos saudáveis e medidas de adaptação ao calor podem contribuir para preservar a saúde cerebral e reduzir riscos associados ao envelhecimento.
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