Policial • 15:49h • 07 de agosto de 2026
Estelionato explode no Brasil e já registra um golpe a cada 14 segundos, aponta Anuário da Segurança Pública
Especialista alerta que fraudes financeiras estão mais sofisticadas, digitais e organizadas, dificultando investigações e aumentando os prejuízos das vítimas
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da PRDA Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
O estelionato deixou de ser um crime isolado para se transformar em uma das modalidades criminosas que mais crescem no Brasil. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostram que o país registrou 2,2 milhões de ocorrências no último ano, o equivalente a um golpe a cada 14 segundos. Desde 2018, quando esse tipo de crime passou a integrar a série histórica do levantamento, o crescimento acumulado chega a 429,8%.
A advogada Mayra Vieira Dias analisa que o cenário revela uma mudança estrutural na criminalidade patrimonial brasileira. Segundo ela, os golpes deixaram de ser ações improvisadas e passaram a funcionar como verdadeiras organizações, utilizando tecnologia, redes sociais e sistemas financeiros digitais para ampliar o alcance das fraudes.
Golpes deixaram de ser artesanais
De acordo com Mayra, a transformação se intensificou a partir de 2019 e ganhou força durante e após a pandemia da Covid-19.
Com a popularização do Pix, das redes sociais e das plataformas digitais, criminosos passaram a operar estruturas muito mais sofisticadas, utilizando contratos, publicidade profissional, aplicativos, escritórios e discursos cuidadosamente preparados para transmitir credibilidade.
Segundo a especialista, um dos maiores desafios atuais é justamente identificar quando um negócio aparentemente legítimo, na verdade, foi criado para aplicar golpes. "A fraude aprendeu a se apresentar como negócio", observa.
Aparência de legalidade dificulta investigações
A advogada explica que muitas vítimas apresentam contratos assinados, comprovantes de transferências, extratos de plataformas de investimento e conversas com representantes das empresas envolvidas.
Essa aparência de regularidade faz com que diversas ocorrências sejam inicialmente interpretadas apenas como descumprimento contratual, quando, em alguns casos, podem esconder estruturas organizadas para captar recursos de investidores mediante falsas promessas.
Segundo ela, essa diferença de interpretação pode atrasar investigações justamente no momento em que a rapidez é essencial.
Nas fraudes financeiras, destaca Mayra Vieira Dias, tempo significa patrimônio. Quanto mais cedo ocorre o rastreamento dos recursos e a identificação dos envolvidos, maiores tendem a ser as possibilidades de recuperação dos valores.
Apenas pequena parcela dos casos chega à Justiça
O Anuário também evidencia outro problema. Embora o número de golpes continue crescendo, apenas 2,8% das ocorrências registradas chegam efetivamente ao Poder Judiciário.
Na prática, isso significa que a maioria dos casos permanece restrita ao boletim de ocorrência, sem avanço suficiente para responsabilização dos autores.
Entre os fatores apontados estão o enorme volume de crimes, a pulverização geográfica das fraudes e a dificuldade de rastrear recursos que circulam por diversas contas bancárias em poucos minutos.
Facções criminosas também aparecem nas investigações
Outro dado considerado preocupante pelo levantamento é a presença de organizações criminosas em parte dos esquemas de fraude patrimonial.
O Anuário menciona investigações envolvendo facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), indicando que algumas estruturas ultrapassam o simples estelionato e podem se enquadrar também na legislação que trata das organizações criminosas.
Segundo Mayra, isso demonstra que os golpes deixaram de ser iniciativas individuais e passaram a integrar modelos criminosos altamente estruturados.
Promessas de lucro fácil continuam sendo o principal alerta
Nos casos acompanhados pelo IPGE Brasil, o perfil das vítimas costuma se repetir.
São pessoas interessadas em complementar renda ou investir recursos, atraídas por promessas de rentabilidade muito acima das praticadas pelo mercado financeiro tradicional.
Além das perdas financeiras, a especialista destaca impactos emocionais importantes, como vergonha, isolamento e perda de confiança nas instituições, consequências que normalmente não aparecem nas estatísticas oficiais.
Prevenção continua sendo a principal defesa
Para Mayra, enfrentar esse cenário exige mais do que ampliar o número de registros policiais.
Ela defende investimentos em investigação especializada, integração entre órgãos de fiscalização, bancos e forças de segurança, além de mecanismos capazes de interromper rapidamente estruturas fraudulentas antes que atinjam milhares de vítimas.
Enquanto esse sistema evolui, a recomendação permanece a mesma: desconfiar de promessas de retorno elevado, verificar a regularidade das empresas antes de investir e buscar orientação jurídica especializada o mais rapidamente possível caso exista suspeita de fraude.
Segundo a especialista, a velocidade da resposta continua sendo um dos fatores mais importantes para aumentar as chances de recuperação dos prejuízos.
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