Saúde • 09:44h • 13 de maio de 2026
Especialista da Fiocruz esclarece dúvidas sobre hantavírus após surto em cruzeiro internacional
Casos suspeitos registrados no navio MV Hondius colocaram o hantavírus em evidência. Pesquisadora da Fiocruz explica formas de transmissão, sintomas, riscos e medidas de prevenção da doença
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações da Fiocruz | Foto: Josué Damacena
O surto registrado no navio de cruzeiro MV Hondius, que saiu da Argentina em direção a Cabo Verde no início de abril, chamou atenção para o hantavírus, doença ainda pouco conhecida pela população, mas considerada grave pelas autoridades de saúde.
No Brasil, o Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) atua como referência regional para hantaviroses junto ao Ministério da Saúde.
Segundo a infectologista Elba Lemos, pesquisadora da Fiocruz e coordenadora do laboratório de referência, o episódio representa baixo risco para a saúde pública global, apesar da gravidade dos casos registrados.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que ao menos oito passageiros apresentaram sintomas suspeitos da doença e três morreram.
De acordo com a especialista, o hantavírus não é um vírus novo e, diferentemente de outras doenças respiratórias, não costuma provocar epidemias, mas sim casos isolados ou pequenos surtos.
Ela explica que a transmissão entre pessoas é rara e ocorre apenas em situações específicas relacionadas à variante Andes do vírus, encontrada na Argentina e no Chile.
O hantavírus é transmitido principalmente pelo contato com partículas presentes na urina, fezes ou saliva de roedores silvestres infectados. A infecção costuma acontecer pela inalação dessas partículas suspensas no ar.
No caso do surto no cruzeiro, o ambiente fechado pode ter favorecido a transmissão entre pessoas.
Segundo Elba Lemos, o período de incubação da doença pode variar de três a 60 dias. Por isso, autoridades de saúde acompanham passageiros e trabalhadores do navio para monitorar possíveis novos casos.
A orientação é que pessoas expostas ao vírus permaneçam em observação e procurem atendimento médico ao apresentarem qualquer sintoma.
A especialista também destaca a importância de rastrear as atividades realizadas pelos pacientes antes do aparecimento dos sintomas para identificar possíveis locais de contaminação.
Casos no Brasil e formas de prevenção
No Brasil, os casos de hantavirose ocorrem principalmente nas regiões Sul e Sudeste, com exceção do Espírito Santo, além de estados como Mato Grosso, Amazonas, Pará e Maranhão.
Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2025 foram registrados 36 casos da doença no país, incluindo 15 mortes.
Elba Lemos explica que existem nove genótipos diferentes de hantavírus circulando no Brasil, mas nenhum deles apresentou transmissão de pessoa para pessoa.
Ela ressalta ainda que fatores ambientais e climáticos, como o fenômeno El Niño e o aumento da população de roedores silvestres, podem influenciar a ocorrência da doença.
A variante Andes, identificada no surto do cruzeiro, não circula no Brasil porque depende de uma espécie específica de roedor encontrada apenas na Argentina e no Chile.
Mesmo que uma pessoa infectada entre no país, a pesquisadora afirma que o vírus dificilmente se estabelecerá no território brasileiro, já que o roedor reservatório não existe aqui.
Os sintomas iniciais da hantavirose se parecem com os de outras viroses. Entre eles estão febre alta, dores no corpo, mal-estar, dor de cabeça, tosse seca, náuseas, vômitos e diarreia.
Nos casos mais graves, a doença pode evoluir rapidamente para pneumonia, dificuldade respiratória, insuficiência respiratória aguda e choque circulatório.
Segundo a especialista, o risco de morte é elevado quando o tratamento intensivo não é iniciado rapidamente.
Ela alerta que a hantavirose pode ser confundida com dengue, o que exige atenção dos profissionais de saúde, já que a hidratação intensa indicada para dengue pode agravar o quadro pulmonar de pacientes com hantavirose.
A médica orienta que os profissionais investiguem se o paciente esteve em áreas rurais, depósitos de grãos, galpões fechados, locais de desmatamento ou ambientes com presença de roedores nos últimos 60 dias.
A Fiocruz também desenvolveu, em parceria com Bio-Manguinhos e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um teste rápido capaz de detectar a infecção em cerca de 15 a 20 minutos com apenas uma gota de sangue.
Segundo Elba Lemos, a rapidez no diagnóstico é essencial para reduzir a letalidade da doença, especialmente em regiões rurais e de difícil acesso.
O teste já recebeu registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e atualmente é utilizado em pesquisas. Caso haja demanda do Ministério da Saúde, poderá ser disponibilizado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Entre as principais medidas de prevenção estão evitar contato com roedores silvestres e suas secreções, manter depósitos de alimentos bem fechados e impedir o acúmulo de restos de comida próximos às residências.
A especialista recomenda ainda que ambientes fechados sejam ventilados antes da limpeza e que o chão seja umedecido com água sanitária, evitando varrer superfícies secas, o que pode espalhar partículas contaminadas pelo ar.
Para a pesquisadora, o episódio do cruzeiro reforça a importância da vigilância internacional em saúde e mostra como as viagens globais podem contribuir para a circulação de doenças infecciosas.
Ela também defende maior conscientização entre profissionais da saúde, trabalhadores do turismo e viajantes sobre riscos sanitários e medidas preventivas em diferentes destinos.
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