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Saúde • 13:42h • 16 de março de 2026

Endometriose: conheça mais sobre essa doença que afeta cerca de oito milhões de brasileiras

Hospitais da Rede Ebserh fortalecem diagnóstico, tratamento e produção científica para qualificar o cuidado às mulheres

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Gov | Foto: Arquivo Âncora1

Especialistas da Rede esclarecem sobre sintomas, diagnóstico e tratamento, além de alertar para os impactos sobre a qualidade de vida e a fertilidade feminina.
Especialistas da Rede esclarecem sobre sintomas, diagnóstico e tratamento, além de alertar para os impactos sobre a qualidade de vida e a fertilidade feminina.

O Março Amarelo, campanha do Ministério da Saúde (MS) voltada à conscientização sobre a endometriose, inspira a reflexão sobre o problema ginecológico e as alternativas para qualificar o atendimento às mulheres nos hospitais universitários federais geridos pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares ( Ebserh ). Especialistas da Rede esclarecem sobre sintomas, diagnóstico e tratamento, além de alertar para os impactos sobre a qualidade de vida e a fertilidade feminina.

Segundo dados do Ministério da Saúde, oito milhões de brasileiras estão diagnosticadas com endometriose. “A endometriose é uma doença benigna muito heterogênea. Trata-se de um tecido uterino — a mucosa que reveste por dentro o útero — que surge em outros locais do corpo. Isso pode ocorrer nas trompas, no ovário, na pélvis, no intestino, no apêndice”, detalha o chefe da Ginecologia do HUCFF, Afrânio Coelho.

O médico explica que, embora as causas não sejam totalmente identificadas, frequentemente est ão associada s a alterações do sistema imunológico, acometendo mulheres de diferentes faixas etárias, sobretudo no período reprodutivo. O principal sinal de alerta está na dor pélvica intensa, que aumenta no período menstrual — sintoma comumente negligenciado por profissionais de saúde e pelas próprias pacientes. A dismenorreia progressiva — quando a cólica piora com o passar dos anos — também exige atenção, segundo Afrânio. Para o especialista, a escuta qualificada e a investigação clínica adequada são fundamentais.

O tratamento , ele acrescenta , depende do estágio da doença e do desejo reprodutivo da paciente. Quando não há intenção de engravidar, o controle da dor com bloqueio hormonal (como contraceptivos orais ) costuma ser a primeira escolha. Já nos casos em que não há resposta ao tratamento clínico ou quando a doença é mais avançada, pode ser indicada cirurgia minimamente invasiva para retirada dos focos de endometriose, preservando órgãos e fertilidade. Em quadros graves, contudo, pode ser necessária abordagem mais ampla para remover tecidos acometidos.

“Nos casos mais leves, a dor é a principal consequência. Nos casos moderados, a infertilidade é a maior consequência. Já nos casos mais graves , há invasão dos tecidos vizinhos, como vias urinárias, bexiga, ureter e intestino, que passam a apresentar sintomas”, distingue o médico.

Afrânio reforça a importância do diagnóstico precoce: “Se eu faço um diagnóstico tardio, posso levar essa mulher a um tratamento mutilador: com retiradas do ovário, bexiga ou, às vezes, uma colostomia”. Outro desafio está na identificação tardia do problema em função do uso constante de anticoncepcionais: “Muitas mulheres só identificam a endometriose quando suspendem a medicação”.

Inovação para o bem-estar da mulher

Na Maternidade Escola Januário Cicco, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (MEJC-UFRN), uma pesquisa inovadora investiga o uso da estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) como estratégia complementar para o tratamento da dor na endometriose. “Nós estamos investigando como a modulação da atividade cerebral pode influenciar os mecanismos de sensibilização central, um fenômeno em que o sistema nervoso passa a não regular mais a dor como deveria. Atualmente, estamos na fase de análise dos dados e, em breve, divulgaremos os resultados”, relata a pesquisadora Maria Thereza Micussi .

Ela explica que a expectativa é compreender melhor o papel do cérebro na manutenção da dor e ampliar as possibilidades terapêuticas com abordagens não invasivas e conservadoras, complementares ao tratamento hormonal ou cirúrgico.

Paralelamente, outro estudo conduzido na instituição investiga a incidência de sintomas urinários em mulheres com a doença . “A endometriose é tradicionalmente associada à dor pélvica, mas observamos na prática clínica que muitas pacientes também relatam alterações urinárias, como urgência, aumento da frequência miccional ou incontinência urinária”, ressalta ela. A equipe busca acompanhar essas pacientes ao longo do tempo para compreender a frequência e a evolução desses sintomas.

A pesquisa, na MEJC-UFRN, integra as atividades do Ambulatório de Endometriose da maternidade e se articula com ensino e assistência, com participação de estudantes de graduação e pós-graduação dos Programas de Pós-Graduação em Fisioterapia e em Ciências Aplicadas à Saúde da Mulher.

Comunicação como aliada

No Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), a parceria entre a equipe de C omunicação e o Serviço do Ambulatório Multiprofissional de Endometriose evidencia o poder transformador da multidisciplinaridade para aprimorar o atendimento às pacientes. Segundo a chefe da Unidade de Comunicação, Alessandra Muniz, desde 2022 o esforço conjunto inclui reforço das publicações institucionais, envio de sugestões de pauta à imprensa e diálogo contínuo com o público sobre a doença. O resultado é o aumento significativo da procura pelo atendimento integral oferecido.

“Nossa função enquanto comunicadores públicos é apoiar a promoção de conhecimento sobre saúde pública e envolver a sociedade na garantia de direitos integrais em saúde, assumindo uma perspectiva cidadã na comunicação. Também indicar o acesso desses serviços em nossos Hospitais Universitários”, avalia Alessandra. A experiência local inspirou ainda um Trabalho de Conclusão de Curso no Aperfeiçoamento em Comunicação de Saúde realizado pela profissional na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em 2025.

O HU-UFJF conta com ginecologistas — inclusive especialistas em cirurgia minimamente invasiva e robótica —, cirurgiões gerais, médicos da dor, profissionais de proctologia e urologia, além de fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos. “O atendimento integral às mulheres é fundamental para o tratamento, que vai além da retirada dos focos durante a cirurgia, mas também envolve controlar os sintomas e garantir maior qualidade de vida”, ressalta Alessandra.

Entre as histórias que marcam essa nova etapa do atendimento multiprofissional, ela destaca a de uma paciente de mais de 40 anos que conseguiu engravidar antes da cirurgia. “De forma inesperada e emocionante, ela engravidou naturalmente. Realizou o pré-natal de alto risco no próprio HU e, meses depois, compartilhou com a equipe a alegria da maternidade”, lembra Alessandra.


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