Saúde • 12:36h • 02 de agosto de 2026
Dor crônica pode influenciar no tratamento da depressão
Artigo foi publicado na Nature Mental Health
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
Parte dos pacientes diagnosticados com depressão resistente ao tratamento pode, na realidade, conviver com dores crônicas que nunca foram avaliadas adequadamente. Essa é a conclusão de um artigo publicado na revista científica Nature Mental Health, que defende a inclusão da avaliação da dor na investigação de casos em que os antidepressivos não apresentam o efeito esperado.
Segundo os pesquisadores, a dor crônica é frequente entre pessoas com depressão e pode reduzir a eficácia dos medicamentos. Apesar disso, ela não faz parte dos critérios utilizados para definir a depressão resistente, nem é considerada nos principais questionários empregados na prática clínica.
Os autores destacam que a proposta não é afirmar que toda depressão resistente seja causada por dor crônica, mas alertar que, em parte dos casos, esse fator pode estar contribuindo para a persistência dos sintomas sem ser identificado.
Um dos autores do estudo, o médico e pesquisador da Harvard Medical School Nilson Mendes Neto, explica que existe uma diferença entre saber que o paciente sente dor e medir esse sintoma de forma padronizada. Atualmente, a classificação da depressão resistente considera principalmente a falta de resposta aos antidepressivos administrados na dose e pelo tempo adequados, sem avaliar a intensidade ou o impacto funcional da dor.
De acordo com o pesquisador, essa lacuna pode levar médicos a interpretar como falha do tratamento um quadro em que a dor exerce influência importante sobre a evolução da doença. Ele reforça, porém, que o estudo não recomenda que pacientes interrompam ou alterem a medicação por conta própria.
Os autores também ressaltam que ainda não é possível determinar quantos pacientes se enquadram nessa situação, justamente porque a dor não costuma ser avaliada de forma sistemática nos estudos e na prática clínica.
Impactos para o SUS
Na avaliação dos pesquisadores, incorporar a investigação da dor crônica ao atendimento pode trazer benefícios ao Sistema Único de Saúde (SUS) sem exigir tecnologias complexas. A recomendação é que unidades de atenção primária, ambulatórios de saúde mental e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) passem a registrar de forma estruturada a presença, a duração e o impacto da dor em pacientes cuja depressão não melhora com o tratamento.
A medida é considerada especialmente relevante porque muitos pacientes também convivem com doenças como lombalgia, osteoartrite, fibromialgia e neuropatias, frequentemente tratadas em serviços diferentes.
Segundo Nilson Mendes Neto, avaliar esses fatores antes de recorrer a tratamentos mais complexos pode aumentar a precisão do diagnóstico e garantir que cada paciente receba a abordagem mais adequada. O pesquisador defende ainda maior integração entre os serviços de saúde mental, atenção primária e atendimento especializado em dor para melhorar o cuidado oferecido aos pacientes.
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