Saúde • 08:54h • 09 de setembro de 2026
Doação de órgãos esbarra na recusa de 45% das famílias no Brasil
Em 2025, 45% das famílias entrevistadas não autorizaram a doação; projeto capacitou mais de 2,5 mil profissionais para melhorar acolhimento e condução do processo
Da Redação | Com informações da EBC | Foto: Divulgação/MS
Quase metade das famílias brasileiras entrevistadas após a identificação de um potencial doador não autoriza a doação de órgãos. Em 2025, foram 4.200 recusas, equivalentes a 45% das entrevistas realizadas, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Entre os fatores que podem influenciar essa decisão estão dúvidas sobre a morte encefálica, receios relacionados ao corpo e falhas na comunicação e no acolhimento dentro dos hospitais.
A taxa de recusa varia entre estados e até entre hospitais de uma mesma cidade. Para a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), essa diferença mostra que a decisão não está relacionada apenas às famílias, mas também à maneira como as instituições e os profissionais conduzem um momento marcado pelo luto e pela necessidade de compreender informações médicas complexas.
Segundo o presidente da AMIB, Cristiano Franke, algumas famílias chegam ao hospital sabendo que o familiar desejava ser doador, mas podem encontrar dificuldades para compreender todas as etapas do processo. “Muitas vezes as famílias não recebem todas as informações adequadamente, no momento e com um protocolo adequados para tomarem a melhor decisão”, afirma. Ele também aponta como problemas o excesso de termos técnicos e abordagens consideradas frias ou realizadas em locais inadequados.
Mais de 2,5 mil profissionais passaram por capacitação
Para melhorar a condução dessas situações, a AMIB, em parceria com o Ministério da Saúde, capacitou 2.534 profissionais entre setembro de 2025 e agosto de 2026. O resultado ficou cerca de 27% acima da meta inicial de 2 mil participantes.
A formação não se limita à conversa com os familiares. Os treinamentos abrangem identificação de potenciais doadores, determinação da morte encefálica, manutenção clínica do potencial doador e comunicação em situações críticas, etapas que precisam ser conduzidas de maneira coordenada até uma eventual doação.
Entre os profissionais capacitados estão 933 médicos, dos quais 473 receberam treinamento específico para determinação de morte encefálica. Também participaram enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, administradores, farmacêuticos, odontólogos, biólogos, além de profissionais de nutrição e pedagogia.
Morte encefálica e integridade do corpo estão entre as dúvidas
A dificuldade de compreender ou aceitar o diagnóstico de morte encefálica aparece entre as razões que podem levar à recusa. Também são citadas crenças religiosas, desconfiança em relação ao processo, desconhecimento da vontade manifestada em vida pelo familiar e preocupação com possíveis alterações na aparência do corpo.
Franke explica que o receio de deformações após a retirada dos órgãos é relatado diretamente pelas famílias e precisa ser esclarecido. “Nós explicamos adequadamente como é feito o procedimento e a reconstituição do corpo, que não deixarão deformidades visíveis nos ritos funerais como o velório”, afirma.
Até agosto, o projeto havia realizado 73 cursos, distribuídos em 23 módulos, com atividades em 25 estados. Outros oito treinamentos ainda estão previstos antes do encerramento da iniciativa, incluindo atividades neste mês em Fortaleza (CE) e Florianópolis (SC).
De 15,9 mil potenciais doadores, 4,3 mil efetivaram a doação
O Brasil registrou 15.940 potenciais doadores em 2025, mas 4.335 tornaram-se doadores efetivos, o equivalente a cerca de 27% do total inicialmente identificado. No mesmo período, 4.200 famílias entrevistadas recusaram a autorização.
Apesar dos desafios, o número de doadores efetivos por milhão de habitantes avançou de 19,2 em 2024 para 20,3 em 2025, crescimento de aproximadamente 5,7% em um ano.
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