Variedades • 12:01h • 15 de agosto de 2026
Do tombo na sarjeta ao prêmio acadêmico: uma semana sobre insegurança, humor e persistência
Um trabalho premiado mostrou que ocupar novos espaços não exige ausência de medo, mas disposição para continuar mesmo quando a insegurança insiste em aparecer
Coluna | Ana Clara Vasques Gimenez | Foto: Âncora1
Na semana passada, participei de um evento acadêmico importante para uma das áreas às quais tenho dedicado minha pesquisa: o trabalho de cuidado.
O encontro aconteceu na Universidade Federal do Paraná e, ao lado de duas colegas do doutorado, uma delas já doutora, apresentei um trabalho construído conjuntamente.
Era uma boa oportunidade. Daquelas que procuramos quando escolhemos a vida acadêmica. Ainda assim, minha primeira sensação não foi exatamente de entusiasmo. Foi de insegurança.
Em alguns momentos, enquanto assistia às palestras, pensei se realmente deveria estar ali.
Olhava para pesquisadores experientes, para professores com trajetórias consolidadas e para pessoas que há anos se dedicavam ao tema e me perguntava, silenciosamente, se eu era boa o suficiente para ocupar aquele espaço. Se meu trabalho era relevante o suficiente.
Se eu realmente merecia aquela oportunidade, senti-me uma impostora.
É uma sensação curiosa porque não necessariamente acompanha a realidade. Podemos conhecer nossa própria trajetória, saber quanto estudamos, reconhecer os caminhos que percorremos e, mesmo assim, diante de determinados ambientes, sentir que entramos por engano em uma sala para a qual todos os outros parecem ter recebido um convite mais legítimo que o nosso.
Naquele dia, porém, fiz o que talvez seja possível fazer quando a insegurança aparece: permaneci.Ocupei aquele espaço mesmo sem estar completamente convencida de que pertencia a ele.
Algum tempo depois, aconteceria a divulgação dos trabalhos premiados pelo evento.
No mesmo dia da cerimônia, eu deveria seguir para a aula no doutorado. Saí de casa em meio a uma chuva torrencial que atingia Assis e a região.
E foi então que toda a solenidade deu lugar à uma cena menos prestigiosa, porque antes mesmo de conseguir entrar no carro, escorreguei e caí de joelhos na sarjeta.
Não há currículo Lattes que prepare alguém para isso.
Foi um tombo dolorido, inesperado e suficientemente constrangedor para que, depois do susto, eu mesma começasse a achar graça da situação, mas em razão da chuva, da dor e das condições da estrada, acabei não seguindo para a aula naquela noite.
Horas depois, em casa, compartilhei com minhas colegas a transmissão ao vivo da premiação do evento. Acompanhávamos à distância quando começaram a anunciar os trabalhos vencedores.
E então apareceu o nosso. Ficamos em Segundo lugar.
Aquele momento produziu uma sensação difícil de resumir: alegria, surpresa, gratidão e, sobretudo, a percepção de que o trabalho coletivo havia encontrado reconhecimento.
O artigo que poucos dias antes eu havia apresentado ainda me perguntando se era suficientemente boa para estar naquele ambiente agora era premiado justamente naquele espaço. A vida tem um senso de humor peculiar.
No dia seguinte, quando consegui chegar à aula do doutorado, contei aos colegas e à secretaria da universidade sobre o meu fatídico encontro com a sarjeta. Ao perceberem que eu relatava tudo rindo, me perguntaram: “Como você consegue falar disso com humor?”
Minha resposta foi simples. Aprendi que, em algumas situações, reclamar não muda absolutamente nada. Então, depois que passa a dor, é melhor aprender a rir de si mesma.
Naquele mesmo espaço também comemoramos o prêmio. Havia algo especialmente simbólico nisso, pois um trabalho produzido por pesquisadoras vinculadas a um programa de pós-graduação do interior do Paraná havia sido reconhecido em uma das maiores universidades do país e da América do Sul.
O chamado “interior do interior” também produz pesquisa, conhecimento e respostas capazes de circular por espaços que, algumas vezes, parecem distantes demais de onde começamos.
Talvez essa tenha sido uma das lições mais interessantes, na minha visão: Há momentos em que passamos tanto tempo tentando construir uma trajetória profissional que começamos a imaginar que determinados títulos, posições ou conquistas deveriam nos conceder alguma espécie de imunidade à insegurança, ao constrangimento ou ao fracasso.
Continuamos sujeitos a errar, duvidar da própria capacidade ou, literalmente, cair de joelhos no chão. Grandes títulos não nos protegem dos pequenos tombos e muito menos dos grandes, a diferença está no que fazemos depois deles.
Aquela semana poderia ter ficado marcada para mim pela insegurança que senti ao entrar naquele evento ou pelo constrangimento do tombo. Prefiro lembrá-la como a semana em que, apesar da insegurança e do medo de não ser suficientemente boa, permaneci; e, algumas horas depois de cair na chuva, descobri que aquele mesmo trabalho havia recebido um prêmio.
Não porque o prêmio tenha eliminado minhas inseguranças, porque provavelmente outras aparecerão, mas porque ele me lembrou de uma coisa importante: muitas vezes, não precisamos esperar nos sentir completamente preparados para ocupar determinados espaços. Precisamos apenas continuar construindo razões para estar neles.
E, quando vierem os tombos, porque eles virão, talvez humildade e humor sejam duas das melhores companhias que podemos carregar. A humildade nos recorda sobre a fragilidade e o humor nos permite não transformar cada tropeço em uma tragédia pessoal.
No fim das contas, são justamente essas pequenas imperfeições que nos devolvem à dimensão mais importante de qualquer trajetória, porque antes de sermos profissionais, somos pessoas e isso é o que sustenta as relações que construímos, a maneira como exercemos nossas profissões e a capacidade de continuar caminhando.
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