Educação • 10:11h • 17 de novembro de 2025
Desafios sensoriais e emocionais marcam a experiência de autistas no ENEM
Barreiras invisíveis tornam a trajetória até a universidade uma travessia desigual, apontam especialistas e familiares
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Assessoria | Foto: Divulgação
Com 4,8 milhões de inscritos, o ENEM movimenta estudantes de todo o país, mas para participantes com Transtorno do Espectro Autista a experiência pode ser mais intensa do que as cinco horas de prova. Ruídos, mudanças de rotina, concentração prolongada e expectativas externas criam um cenário de forte impacto sensorial e emocional.
O Censo 2022 do IBGE indica que o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo, mas apenas 25,4 por cento dos adultos com TEA concluíram o ensino médio. Mesmo quando ingressam em universidades, muitos enfrentam instituições despreparadas para oferecer suporte contínuo.
O que especialistas e familiares enxergam no ENEM
Para muitas famílias, o exame simboliza mais do que uma avaliação. Sarita Melo, mãe atípica e idealizadora da Jornada do Autismo, relata que acompanhar jovens autistas no ENEM a faz refletir sobre o futuro de sua filha, Elisa, de seis anos. Ela afirma que a inclusão começa na infância, mas precisa acompanhar a vida acadêmica e profissional. Ao planejar eventos e discussões sobre o tema, Sarita reforça que ainda se fala pouco sobre autonomia e sobre o período em que o estudante passa a enfrentar o mundo fora da escola.
O neurologista Thiago Gusmão, especialista em infância e adolescência, aponta que essa transição é uma das etapas mais sensíveis da vida do jovem autista. Ele explica que mudanças bruscas, pressão social e estímulos intensos podem desencadear ansiedade e estresse, especialmente porque diferenças no funcionamento neurológico afetam controle emocional, autorregulação e empatia.

O médico também destaca que o ENEM reúne fatores que elevam a sobrecarga emocional. Ruídos inesperados, tempo cronometrado e deslocamento de rotina exigem preparo clínico, psicológico e conhecimento de direitos. O exame possui cartilha específica de acessibilidade para pessoas com TEA, mas o material ainda é pouco conhecido entre os estudantes.
Entre os jovens, a expectativa mistura responsabilidade e esperança. Tarso Enrique S. dos Santos, de 16 anos, que prestou o ENEM pela primeira vez, relata que o que mais o entusiasma é poder escolher uma área de interesse e encontrar um ambiente acadêmico acolhedor.
Universidades ainda caminham para oferecer permanência real
Especialistas afirmam que a inclusão no ensino superior não depende da capacidade dos estudantes, mas da estrutura oferecida pelas instituições. A psicóloga Leila Bagaiolo, referência em Análise do Comportamento e Cognição Social, avalia que os modelos universitários ainda são pensados para perfis típicos. Ela aponta a ausência de salas sensoriais, tutores de regulação e professores capacitados como fatores que dificultam a permanência.
Para ela, transformações começam com três frentes: acolhimento organizado desde o primeiro semestre, flexibilização de prazos por meio de planos individuais e formação continuada de docentes sobre comunicação funcional e manejo de crises. Mudanças pequenas, segundo a psicóloga, podem construir ambientes muito mais acessíveis.
Sob a perspectiva comportamental, Leila reforça que cognição social é a base da autonomia. Compreender regras sociais, desenvolver autorregulação e aprimorar comunicação assertiva são elementos que ajudam o estudante autista a se sentir pertencente e a permanecer na instituição.
Cuidados preventivos e organização da rotina
Thiago Gusmão também indica que ações preventivas afetam diretamente o desempenho e o bem-estar. Ele cita rotina estruturada, alimentação previsível, sono regulado e simulações prévias do ambiente de prova como estratégias que reduzem o impacto do inesperado. Para o jovem autista, previsibilidade e apoio multiprofissional são fundamentais para alcançar foco e clareza.
O conjunto das experiências revela que o Brasil ainda precisa avançar para transformar presença em permanência. O ENEM, nesse contexto, funciona como um espelho que evidencia lacunas, desigualdades e caminhos que ainda precisam ser construídos para garantir acesso real ao ensino superior.
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