Ciência e Tecnologia • 15:18h • 22 de agosto de 2026
De 14 dias para 24 horas: ciência brasileira acelera produção de bioinsumos para o campo
Pesquisas brasileiras trabalham para ampliar a estabilidade dos produtos biológicos, melhorar o controle de doenças e preservar o potencial produtivo das plantas diante de condições climáticas adversas
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação
O avanço dos bioinsumos na agricultura brasileira está levando pesquisadores a enfrentar desafios que vão muito além de encontrar microrganismos capazes de beneficiar as lavouras. Para que essas soluções funcionem em escala comercial, é necessário reduzir o tempo de produção, aumentar a estabilidade durante o armazenamento e garantir resultados no controle de doenças e em períodos de estresse climático. Pesquisadoras da Síntese Agro Science trabalham nessas três frentes, utilizando fermentação, encapsulamento, metabólitos e processos ligados à fisiologia vegetal para aproximar a biotecnologia das necessidades encontradas no campo.
O desenvolvimento de um produto biológico percorre diferentes etapas antes de chegar ao agricultor, incluindo pesquisa, formulação, testes e validação. Um dos principais obstáculos está justamente em reproduzir em escala industrial aquilo que apresentou bons resultados dentro do laboratório, mantendo características que permitam sua utilização comercial.
Outra frente envolve a busca por tecnologias que reduzam a dependência de insumos externos. Nesse processo, as pesquisas apresentadas pela empresa se concentram não apenas no uso dos próprios microrganismos, mas também nas substâncias produzidas por eles e na atividade enzimática das plantas.
Fermentação pode cair de até 14 dias para 24 horas
Na engenharia de bioprocessos, reduzir o tempo necessário para produzir determinados fungos pode ter impacto direto sobre custos industriais. Natieli Corniani, doutoranda em Biotecnologia Ambiental e gerente de P&D de Produtos Biológicos da Síntese Agro Science, atua justamente no escalonamento desses processos.
Segundo a pesquisadora, enquanto determinados processos de fermentação utilizados no mercado levam entre sete e 14 dias, a tecnologia desenvolvida pela empresa consegue atingir o resultado em 24 horas. A redução diminui o período de utilização de energia e de manipulação durante a produção.
Outro desafio está no chamado shelf life, período durante o qual o produto mantém suas características adequadas para utilização. A pesquisa recorre a conhecimentos empregados pelas indústrias farmacêutica e alimentícia para desenvolver formas de encapsular microrganismos e aumentar sua resistência às condições encontradas durante armazenamento e utilização.
Microrganismos são estimulados a produzir substâncias de defesa
No campo, uma das linhas de pesquisa procura utilizar a atividade dos microrganismos para aumentar a capacidade de defesa das próprias plantas. O trabalho é conduzido por Gabriela Bissoli, engenheira agrônoma, mestre em Proteção de Plantas e analista especialista de IP&D da companhia.
Em vez de trabalhar exclusivamente com a aplicação do microrganismo, a pesquisa busca estimular a produção de substâncias bioativas e metabólitos específicos. Esses compostos podem atuar sobre mecanismos de defesa vegetal e contribuir para reduzir a severidade de doenças.
“Nós induzimos os microrganismos a produzirem substâncias bioativas e metabólitos específicos a nosso favor. Funciona como uma verdadeira vacina para a planta, blindando-a previamente para impedir a entrada de patógenos e ativando seus genes de defesa”, explica Bissoli.
A proposta é utilizar essas ferramentas como alternativas em situações nas quais intervenções químicas podem ser reduzidas, associando o controle biológico à busca por menor custo de produção e preservação do potencial da lavoura.
Carolina Fedrigo | Gabriela Bissoli | Natieli Corniani / Profissionais da Síntese Agro Science
Tecnologia também mira perdas provocadas pela seca
A terceira frente apresentada está relacionada à capacidade das plantas de enfrentar condições climáticas adversas. Carolina Fedrigo, doutora em Agronomia e coordenadora de Inovação e P&D, desenvolve pesquisas envolvendo nutrição vegetal e atividade enzimática, com atenção especial ao estresse hídrico.
As soluções estudadas atuam sobre o sistema antioxidante e mecanismos relacionados à retenção de água nas células. O objetivo não é aumentar artificialmente o potencial genético da cultura, mas reduzir as perdas que podem ocorrer quando a planta enfrenta falta de água ou outras condições desfavoráveis.
“Nossa tecnologia atua no sistema antioxidante da planta, ativando genes que produzem moléculas de proteção e realizando uma osmorregulação para impedir a perda de água celular sob estresse hídrico”, afirma Fedrigo.
O conjunto das pesquisas mostra uma mudança de escala no desenvolvimento dos bioinsumos: além de descobrir soluções biologicamente eficientes, o desafio passa por torná-las industrialmente viáveis, estáveis e capazes de responder às condições encontradas nas lavouras. Fermentações mais rápidas, maior vida útil, ativação de mecanismos naturais de defesa e proteção diante da seca estão entre os caminhos investigados para transformar resultados de laboratório em ferramentas disponíveis ao produtor.
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