Política • 15:34h • 05 de agosto de 2026
Conquista do voto feminino no Brasil resistiu à misoginia histórica
Estudiosas dizem que discursos machistas atacam sufrágio desde 1890
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Acervo Arquivo Nacional
Ao longo da história do Brasil, o direito ao voto feminino enfrentou forte resistência e discursos marcados pelo machismo. Em 1891, durante os debates da primeira Constituição Republicana, parlamentares defenderam que as mulheres não deveriam participar da vida política. Décadas depois, declarações semelhantes voltaram ao debate público, reacendendo discussões sobre a permanência de ideias que questionam a participação política das mulheres.
Pesquisadoras ouvidas pela Agência Brasil afirmam que esses discursos representam reações aos avanços da cidadania feminina e refletem a continuidade de estruturas patriarcais e misóginas. Segundo elas, embora a linguagem tenha mudado ao longo dos anos, a lógica que busca limitar a atuação das mulheres na política permanece presente.
A professora de Direito Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), destaca que o voto feminino foi conquistado após intensa mobilização social e não como uma concessão espontânea. Ela lembra que o direito ao sufrágio é garantido pela Constituição Federal de 1988, que assegura o voto universal sem distinção de sexo, além de proibir qualquer forma de discriminação.
Para a pesquisadora Cibele Tenório, da Universidade de Brasília (UnB), os ataques atuais podem desestimular a participação política das mulheres e representam uma forma de intimidação, ainda que não resultem diretamente em mudanças na legislação.
Resistência histórica e conquista do voto
As estudiosas lembram que a primeira Constituição da República rejeitou o sufrágio feminino sob o argumento de que as mulheres não teriam capacidade para a vida pública. Durante décadas, sufragistas foram alvo de críticas, ridicularização e ataques na imprensa por defenderem o direito ao voto e à participação política.
Entre os principais nomes desse movimento estão Leolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino, Almerinda Gama e Bertha Lutz, que lideraram campanhas, organizaram manifestações e articularam apoio político em defesa da ampliação dos direitos das mulheres.
Em 1932, o Código Eleitoral garantiu pela primeira vez o direito de as mulheres votarem e serem votadas. A conquista foi incorporada à Constituição de 1934 e, posteriormente, ampliada. Em 1946, o voto feminino tornou-se obrigatório para mulheres alfabetizadas, e a Constituição de 1988 eliminou a exigência de alfabetização para o exercício do direito ao voto.
Maioria do eleitorado
Atualmente, as mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de 83 milhões de eleitoras estão aptas a votar em 2026, número superior ao de eleitores homens.
As pesquisadoras afirmam que o aumento da participação feminina na política e em outros espaços públicos costuma ser acompanhado por reações contrárias, fenômeno conhecido nos estudos de gênero como backlash — uma resposta de resistência diante da ampliação de direitos.
Além da luta pelo voto, o movimento sufragista também defendia maior acesso das mulheres à educação, ao mercado de trabalho e à participação na vida pública. Para as especialistas, preservar a memória dessas conquistas e fortalecer políticas de educação e participação política são medidas importantes para evitar retrocessos e ampliar a igualdade de direitos.
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