Saúde • 10:18h • 15 de agosto de 2026
Câncer de pulmão tem novos caminhos de tratamento, mas acesso ainda separa pacientes no Brasil
Agosto Branco chama atenção para uma diferença que começa na descoberta da doença e pode chegar às chances de tratamento e sobrevida
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Sensu Comunicação | Foto: Divulgação
Receber um diagnóstico de câncer de pulmão hoje não significa encontrar as mesmas possibilidades de tratamento para todos os brasileiros. No Agosto Branco 2026, o Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) coloca justamente essa desigualdade no centro da campanha e chama atenção para o acesso à prevenção, ao rastreamento, aos exames e às terapias que podem mudar o curso da doença.
O alerta acompanha números expressivos. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Somente em 2025, foram registradas 32.113 mortes pela doença no país.
Embora o cigarro continue sendo o principal fator de risco, a medicina avançou e abriu novas possibilidades. Hoje, descobrir um tumor mais cedo, conhecer suas características moleculares e escolher um tratamento específico pode fazer diferença na trajetória do paciente. O desafio é fazer com que essas possibilidades estejam disponíveis independentemente de onde a pessoa seja atendida.
Descobrir cedo pode mudar o caminho
O câncer de pulmão pode permanecer silencioso no começo. Tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão e perda de peso inexplicada podem aparecer quando a doença já avançou, tornando o diagnóstico precoce um dos pontos mais importantes dessa discussão.
Para pessoas consideradas de alto risco, a tomografia computadorizada de baixa dose pode ajudar a encontrar tumores em estágios iniciais. Em julho, o Ministério da Saúde anunciou um projeto-piloto para avaliar a implantação desse rastreamento no SUS.
Mas encontrar uma alteração é apenas o começo. O paciente ainda precisa conseguir realizar os exames necessários, confirmar o diagnóstico e chegar ao tratamento sem enfrentar uma longa espera. Para o presidente do GBOT, Vladmir Cordeiro de Lima, é preciso enxergar esse percurso como um todo. “A discussão sobre acesso abrange toda a jornada do paciente”, afirma o oncologista.
Quando o exame disponível muda o tratamento possível
Uma das transformações mais importantes dos últimos anos foi a possibilidade de analisar características genéticas do próprio tumor. Esses testes podem indicar se determinado paciente é candidato a terapias direcionadas especificamente a uma alteração molecular.
É justamente nesse ponto que uma diferença chama atenção. Estudo nacional publicado no JCO Global Oncology mostrou que 93,9% dos médicos da saúde suplementar relataram acesso ao teste para alteração no gene ALK. Entre profissionais que atuam no SUS, o percentual foi de 43,9%.
A distância também apareceu no tratamento. Entre pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células e alteração no ALK analisados em outro estudo, 53,9% daqueles atendidos pela saúde suplementar receberam terapia-alvo como primeira opção, contra 22,2% no SUS.
Depois de três anos de acompanhamento, 87,2% dos pacientes da saúde suplementar permaneciam vivos, enquanto no sistema público eram 61,4%. Os pesquisadores também encontraram maior demora entre sintomas, diagnóstico e início do tratamento entre usuários do SUS.
Fazer a inovação chegar ao paciente
O desafio brasileiro, portanto, não termina na descoberta de novos medicamentos. Estudos reunidos pelo GBOT apontam barreiras que passam pela estrutura disponível para exames, tempo de espera, laboratórios especializados e incorporação de novas tecnologias.
Para a oncologista Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT, conhecer as características do tumor tornou-se parte essencial desse cuidado. “Sem esse diagnóstico, muitos pacientes deixam de receber terapias capazes de proporcionar maior controle da doença, melhor qualidade de vida e aumento da sobrevida”, afirma.
É essa distância entre aquilo que a medicina já consegue fazer e aquilo que efetivamente chega às pessoas que o Agosto Branco tenta colocar em evidência. Em uma doença na qual o tempo pode influenciar as possibilidades de tratamento, ampliar o acesso significa permitir que mais pacientes possam se beneficiar dos avanços que já existem.
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