Ciência e Tecnologia • 10:49h • 21 de agosto de 2026
Células-tronco do nariz fazem ratos com lesão na medula voltarem a andar em estudo da USP
Pesquisa experimental encontrou melhora mais rápida da função motora com células da mucosa olfatória, mas tratamento ainda está em fase preliminar e não foi testado em humanos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da USP | Foto: Divulgação
Uma terapia experimental desenvolvida em colaboração entre diferentes centros da Universidade de São Paulo (USP) conseguiu acelerar a recuperação motora de ratos com lesão na medula espinhal a partir de células-tronco retiradas da mucosa olfatória. Os animais que receberam o tratamento voltaram a andar antes da terceira semana de acompanhamento, resultado que indica potencial para novas estratégias de regeneração neurológica, embora a pesquisa ainda esteja em fase pré-clínica e não tenha sido testada em seres humanos.
As lesões medulares estão entre os quadros neurológicos de tratamento mais complexo porque a medula espinhal apresenta baixa capacidade de reconstrução depois de um dano. Atualmente, o atendimento se concentra principalmente em estratégias de suporte, incluindo medicamentos e fisioterapia para reduzir os efeitos da lesão e auxiliar a recuperação.
O estudo integra a tese do médico Brian Coimbra, defendida na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), sob orientação do professor Alexandre Fogaça. A pesquisa reuniu estruturas da FMUSP e do Instituto de Biociências (IB) da universidade para investigar se células presentes na mucosa nasal poderiam favorecer a recuperação do tecido lesionado.
Por que os cientistas olharam para o nariz
O interesse está nas chamadas células ectomesenquimais, presentes na mucosa olfatória e envolvidas em seu processo contínuo de regeneração. Essa região sofre agressões frequentes provocadas, por exemplo, por poluentes presentes no ar, enquanto células-tronco residentes contribuem para renovar o tecido.
Segundo Coimbra, o interesse científico por esse mecanismo ganhou força durante a pandemia de covid-19, quando a perda e posterior recuperação do olfato em pacientes ajudaram pesquisadores a compreender melhor a capacidade regenerativa dessa região.
A mucosa olfatória também apresenta uma característica relevante para pesquisas desse tipo: é relativamente acessível e permite uma obtenção menos invasiva das células. Outras fontes de células-tronco, como cordão umbilical e medula óssea, já foram investigadas, mas apresentaram limitações relacionadas à obtenção, eficácia ou resultados.
Experimento acompanhou 60 ratos
A pesquisa utilizou 60 ratos Wistar, acompanhados durante seis semanas e divididos em cinco grupos. Os pesquisadores produziram uma lesão controlada na medula dos animais por meio de um modelo chamado Mass Impactor, no qual a queda programada de um peso provoca uma contusão de intensidade determinada.
Os grupos receberam diferentes procedimentos para que os pesquisadores pudessem comparar a evolução. Entre os recursos empregados estava o matrigel, material biológico gelatinoso utilizado para transportar as células até a região lesionada.
O resultado mais expressivo apareceu no quinto grupo, que reuniu procedimentos testados anteriormente com a aplicação das células ectomesenquimais retiradas da mucosa nasal. Esses animais apresentaram sinais de melhora e voltaram a andar antes do início da terceira semana do experimento.
Células não substituem diretamente o tecido lesionado
O estudo também ajudou a investigar como as células-tronco podem atuar sobre uma lesão medular. Segundo Coimbra, os resultados não sustentam a ideia de que elas simplesmente ocupem a região danificada e criem um novo canal de condução no sistema nervoso.
A hipótese apontada pela pesquisa é de uma atuação indireta: as células favoreceriam a presença e a produção de substâncias relacionadas à regeneração neuronal na região lesionada, contribuindo para o processo de recuperação.
Esse mecanismo molecular ainda precisa ser investigado em maior profundidade. Os pesquisadores pretendem avançar justamente na compreensão dessa atividade e estudar possibilidades futuras de translação dos resultados, inclusive para o desenvolvimento de medicamentos.
Apesar da recuperação observada nos animais, os resultados não significam que já exista uma terapia disponível para pessoas com lesão na medula. A pesquisa permanece experimental, e estudos adicionais serão necessários antes de qualquer possível aplicação em humanos. A tese deverá originar seis artigos científicos, atualmente em processo de revisão para publicação em periódicos.
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