Mundo • 15:13h • 29 de maio de 2026
Casos de violência sexual na primeira infância quadruplicam em dez anos no Brasil
Pesquisa também mostra abusos mais frequentes contra adolescentes
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
A violência sexual contra crianças e adolescentes aumentou significativamente no Brasil entre 2014 e 2024, segundo dados do Atlas da Violência 2026, divulgado na terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
O levantamento mostra que os casos registrados contra crianças de 0 a 4 anos cresceram mais de quatro vezes no período, passando de 1.671 notificações em 2014 para 7.845 em 2024.
Entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos, os registros subiram de 6.594 para 29.135 casos. Já entre adolescentes de 15 a 19 anos, o número de notificações aumentou de 1.632 para 6.869.
Segundo o estudo, cerca de dois terços das violências sexuais contra crianças de até 14 anos acontecem dentro da própria residência. Entre vítimas de até 4 anos, esse índice chega a 79,9% dos casos.
Os pesquisadores destacam que a maior parte das ocorrências está concentrada na infância e no início da adolescência. Em 2024, aproximadamente 66% dos registros envolveram vítimas entre 5 e 14 anos, enquanto 18% ocorreram entre crianças de 0 a 4 anos e 16% entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Meninas são as principais vítimas de violência sexual
O Atlas aponta forte predominância de vítimas do sexo feminino nos diferentes tipos de violência registrados no país. No caso da violência sexual, 86,9% das vítimas são meninas, enquanto 13,1% são meninos.
Entre 2014 e 2024, foram registrados quase 500 mil casos de violência contra meninas e mulheres, o equivalente a 61% do total das ocorrências analisadas pelo estudo.
A violência psicológica também apresentou maior incidência entre meninas, enquanto a violência física teve distribuição mais equilibrada entre os sexos. Já os casos de negligência tiveram leve predominância entre meninos.
Segundo os pesquisadores, fatores ligados a relações de poder, desigualdade de gênero e controle sobre o corpo feminino ajudam a explicar a maior vulnerabilidade das meninas à violência sexual.
O estudo também alerta para o impacto das redes sociais na disseminação de discursos misóginos e comportamentos relacionados à objetificação feminina e à banalização do consentimento, especialmente entre adolescentes.
Além da violência sexual, o Atlas aponta crescimento nos casos de suicídio e autolesão entre jovens de 10 a 19 anos.
A taxa de suicídios nessa faixa etária aumentou 41,7% entre 2014 e 2024, enquanto as internações por lesões autoprovocadas cresceram 73% no mesmo período.
Os maiores aumentos nos registros de suicídio entre crianças e adolescentes foram observados em estados como Tocantins, Roraima, Pará, Espírito Santo, Pernambuco e Distrito Federal.
Segundo os pesquisadores, muitos desses casos estão associados a situações anteriores de negligência, violência doméstica, abuso e fragilidade nas redes de proteção familiar e social.
O estudo defende a ampliação de políticas públicas voltadas à prevenção da violência, proteção de crianças e adolescentes e fortalecimento do acompanhamento psicológico e social desde a infância.
Especialistas também reforçam a importância de buscar ajuda em casos de sofrimento emocional, violência ou pensamentos suicidas. O atendimento pode ser feito em unidades de saúde, Centros de Atenção Psicossocial (Caps), hospitais, UPAs e pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), no telefone 188, disponível gratuitamente 24 horas por dia.
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