Ciência e Tecnologia • 16:27h • 12 de agosto de 2026
Casca de pinhão que iria para o lixo pode ganhar nova função no tratamento de água
Pesquisa da Universidade de Caxias do Sul testa o resíduo como matéria-prima para produzir carvão ativado, material capaz de reter impurezas e utilizado também em processos industriais
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da UCS | Foto: Divulgação
A casca do pinhão, normalmente descartada depois do consumo da semente, pode ganhar uma função bem diferente: ajudar no tratamento de água e efluentes. Pesquisadores da Universidade de Caxias do Sul (UCS) começaram a estudar a transformação desse resíduo em carvão ativado, material conhecido pela capacidade de reter impurezas e também utilizado na filtragem de emissões industriais.
A ideia aproveita uma matéria-prima bastante ligada ao Sul do Brasil, especialmente disponível durante a safra do pinhão, entre o outono e o inverno. O estudo está em fase inicial e busca descobrir se as características físicas e químicas da casca podem resultar em um carvão com propriedades interessantes para aplicações ambientais.
O projeto é coordenado pelo professor Lademir Luiz Beal e conta com os pesquisadores Rafael Spohr e Lucas David e a estudante de Biomedicina Sara Brasil. A equipe já havia trabalhado com outro resíduo que dificilmente seria associado ao carvão ativado: o caroço de pêssego.

“Aquilo que elas costumam jogar fora pode virar um produto de valor comercial e ambiental”, resume Rafael Spohr ao explicar a proposta de buscar novas utilidades para subprodutos encontrados na própria região.
Mas como uma casca vira carvão ativado?
O processo começa com a pirólise, um tratamento realizado em alta temperatura e sem a presença de oxigênio. Depois, o carvão obtido passa por uma ativação química que aumenta consideravelmente sua área superficial. É justamente essa característica que permite ao material reter impurezas.
Os primeiros testes precisarão de menos de 10 quilos de pinhão. A quantidade reduzida ocorre porque a equipe ainda quer entender como a casca se comporta antes de avançar para uma escala maior. Entre testes de absorção e análises, essa etapa da pesquisa deve levar de seis meses a um ano.

O resultado também não está definido de antemão. A casca pode revelar características próprias e interessantes ou apresentar desempenho semelhante ao de outros materiais já utilizados para produzir carvão ativado. Para os pesquisadores, as duas respostas são relevantes porque ajudam a indicar os próximos caminhos do estudo.
Um resíduo regional com potencial para ganhar valor
O carvão ativado já é empregado por órgãos de saneamento na despoluição de recursos hídricos e esgotos e também pode atuar como filtro para gases industriais. Encontrar novas matérias-primas para sua produção abre espaço para aproveitar resíduos que hoje possuem pouco ou nenhum valor depois do consumo.
No caso do pinhão, há ainda uma ligação direta com uma espécie característica da paisagem brasileira. A semente vem da araucária, árvore que pode atingir cerca de 50 metros de altura e possui ocorrência natural em populações do Sudeste e por toda a região Sul.
Os resultados da UCS deverão servir de base para artigos científicos. Caso a pesquisa encontre propriedades ou processos inovadores, o grupo também considera a possibilidade de registrar patentes. Até lá, a pergunta que conduz os testes permanece simples: quanto potencial pode existir na parte do pinhão que normalmente termina no lixo?
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