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Mundo • 16:06h • 25 de fevereiro de 2026

Canadá baniu notícias nas redes após nova lei, e o Brasil pode estar andando na direção oposta

Reação das plataformas à lei canadense expõe dependência das redes, enquanto o Brasil discute regras profissionais sem enfrentar o que define um portal jornalístico

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Foto: Arquivo/Âncora1

Canadá quis pagar pelo jornalismo, Meta cortou notícias, e o Brasil discute profissão sem critérios
Canadá quis pagar pelo jornalismo, Meta cortou notícias, e o Brasil discute profissão sem critérios

Um aviso recente de monetização acendeu um alerta inesperado. Seu conteúdo foi considerado apto para gerar receita, mas a monetização não se aplica ao Canadá. O motivo remete a uma decisão tomada em 2023, quando o país aprovou uma lei que obrigou grandes plataformas digitais a negociar compensação financeira com empresas jornalísticas. A reação foi direta, a Meta bloqueou a exibição de notícias no Facebook e no Instagram para usuários no Canadá.

O chamado Online News Act, conhecido como Bill C-18, foi criado com o objetivo de reequilibrar a relação entre plataformas e veículos de imprensa. A lógica é que intermediários digitais que distribuem conteúdo noticioso devem negociar acordos com organizações jornalísticas, como forma de sustentar a produção de informação profissional em um ambiente em que a publicidade migrou para as plataformas.

A lei canadense não proibiu notícias nem determinou censura de conteúdo. O que ocorreu foi uma resposta empresarial. Em vez de operar dentro do modelo de negociação previsto, a Meta optou por interromper a disponibilidade de notícias para usuários canadenses. Na prática, contas e páginas classificadas como noticiosas passaram a ter alcance bloqueado no país, o que afetou a circulação de jornalismo em um dos principais ambientes de consumo de informação.

Esse movimento expôs uma fragilidade global, a dependência das plataformas como principal canal de distribuição. Quando a rede social altera regras, o impacto é imediato, sobretudo para veículos locais e regionais, que muitas vezes dependem do alcance orgânico para sustentar audiência e receita.

No Brasil, o debate ganhou outra forma. Em janeiro de 2026, o governo sancionou uma lei que regulamenta o exercício da profissão de multimídia. A norma foi criticada por jornalistas e pela Federação Nacional dos Jornalistas, entre outros pontos, por abrir margem para o exercício profissional sem exigir critérios claros de formação e responsabilidade técnica equivalentes aos do jornalismo.

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No Canadá, o eixo foi valorizar economicamente a produção jornalística, ao criar um mecanismo de negociação com plataformas. No Brasil, a discussão pública recente expõe um vazio anterior, a dificuldade de definir, o que é um portal de notícias, quem responde por ele e quais critérios mínimos deveriam existir para caracterizar uma operação jornalística.

Hoje, qualquer pessoa pode abrir um portal em menos de 24 horas. Há ferramentas e serviços que entregam sites prontos, com aparência semelhante à de grandes marcas nacionais. Sem exigência de jornalista responsável registrado e sem parâmetros técnicos mínimos, o ecossistema se torna confuso para o público e desigual para quem atua com redação estruturada, apuração e responsabilidade editorial.

O resultado é um mercado competitivo, mas desorganizado. Estruturas que não seguem técnicas jornalísticas disputam audiência e publicidade com veículos profissionais. Anunciantes, em muitos casos, não distinguem claramente o que é jornalismo de interesse público do que é apenas conteúdo com aparência jornalística. Quando não há parâmetros, a informação perde valor e a credibilidade coletiva se fragmenta.

É nesse ponto que o modelo canadense, se transplantado para o Brasil sem adaptação, poderia criar distorções. Como definir quais portais teriam direito a negociar compensações com plataformas? Quais seriam reconhecidos como veículos jornalísticos legítimos? Sem critérios objetivos, a política poderia estimular oportunismo e ampliar conflitos, em vez de fortalecer a imprensa.

Ao mesmo tempo, a resposta da Meta no Canadá mostra o outro lado do problema. Plataformas tendem a agir com base em seus próprios interesses e em decisões corporativas. Quando pressionadas por obrigações legais, podem reagir reduzindo ou bloqueando a circulação de notícias, o que afeta diretamente o público e pressiona veículos a buscar alternativas de distribuição fora das redes.

O caso canadense, portanto, aponta duas lições que dialogam com a realidade brasileira. A primeira é que depender de redes sociais como canal central de audiência é um risco estrutural. A segunda é que valorizar o jornalismo exige definir o que é jornalismo, estabelecer responsabilidade editorial e criar critérios mínimos para operações que se apresentam como “noticiosas”.

A discussão não é apenas sobre dinheiro, alcance ou regras de plataforma. É sobre credibilidade, responsabilidade e o futuro da informação em um ambiente digital em que o público recebe tudo no mesmo feed, de jornalismo profissional a conteúdo sem checagem.

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