Saúde • 19:39h • 04 de agosto de 2026
Brasileiros recorrem cada vez mais a remédios para dormir, apesar de alternativas eficazes
Em estudo na USP, grande parte das pessoas que procuraram atendimento psicológico para insônia já faziam uso de medicamentos, principalmente hipnóticos, benzodiazepínicos e drogas de venda livre
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações do CFF | Foto: Arquivo Âncora1
A insônia afeta até um em cada três brasileiros e compromete a saúde, o bem-estar e a produtividade. Embora a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) seja considerada o tratamento mais eficaz e a primeira opção recomendada por especialistas, um estudo da Universidade de São Paulo (USP) mostra que o uso de medicamentos para dormir continua predominando, tanto por prescrição médica quanto por automedicação.
A pesquisa, conduzida pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, revelou que 60% dos participantes utilizavam medicamentos para dormir. Os mais frequentes foram os hipnóticos, como o zolpidem (44%), e os benzodiazepínicos, como o clonazepam (37,9%), classes associadas a efeitos adversos importantes, especialmente quando usadas por longos períodos.
Segundo a coordenadora do estudo, Renatha El Rafihi Ferreira, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o acesso às terapias comportamentais e incentivar o uso racional dos medicamentos.
Automedicação e uso prolongado preocupam
Além dos hipnóticos e benzodiazepínicos, 39% dos participantes relataram o uso de medicamentos vendidos sem receita, como antialérgicos e relaxantes musculares. Para os pesquisadores, esse dado indica que muitas pessoas recorrem à automedicação sem acompanhamento profissional.
O zolpidem foi o remédio mais citado, principalmente entre usuários contínuos. Também apareceram entre os medicamentos de uso frequente a trazodona, a mirtazapina, a pregabalina e a quetiapina. Já os relaxantes musculares e anti-histamínicos foram mais comuns entre quem utilizava medicamentos apenas ocasionalmente.
O estudo identificou ainda diferenças entre grupos populacionais. O uso de medicamentos para dormir foi mais frequente entre participantes brancos do que entre pretos e pardos, diferença que os pesquisadores atribuem, possivelmente, ao acesso desigual aos serviços de saúde.
Embora a pesquisa tenha sido realizada com pessoas que já buscavam tratamento psicológico para insônia, os autores ressaltam que ela evidencia um cenário de forte dependência dos medicamentos e aponta a necessidade de estudos com grupos mais diversos.
Quando a insônia exige tratamento
A insônia é caracterizada por dificuldade para iniciar ou manter o sono, despertares frequentes durante a noite ou acordar antes do horário desejado sem conseguir voltar a dormir. Para o diagnóstico, esses sintomas devem ocorrer pelo menos três vezes por semana e provocar prejuízos durante o dia, como fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração.
Quando o problema persiste por mais de três meses, passa a ser considerado insônia crônica.
Especialistas explicam que fatores como estresse, ansiedade, doenças crônicas e hábitos inadequados favorecem a manutenção do distúrbio. Permanecer muito tempo na cama acordado, dormir durante o dia para compensar a noite mal dormida ou antecipar excessivamente o horário de deitar são comportamentos que podem agravar o problema.
Terapias são a primeira opção
A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia é considerada o padrão-ouro para o tratamento porque atua na mudança de hábitos e pensamentos relacionados ao sono. A abordagem inclui técnicas como controle de estímulos, restrição do tempo na cama e reestruturação cognitiva.
Outra alternativa é a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), que também tem apresentado bons resultados, principalmente no longo prazo. Diferentemente da TCC-I, ela amplia o foco para aspectos emocionais e comportamentais da vida do paciente que podem contribuir para a insônia.
Os pesquisadores destacam que diferentes pessoas podem responder melhor a abordagens distintas, mas reforçam que as terapias psicológicas devem ser priorizadas antes da utilização de medicamentos.
Medicamentos exigem cautela
Os especialistas alertam que medicamentos como zolpidem e benzodiazepínicos foram desenvolvidos para uso de curta duração. O consumo prolongado pode causar dependência, tolerância — quando são necessárias doses cada vez maiores para produzir o mesmo efeito — e prejuízos cognitivos, como alterações de memória e atenção.
Também há aumento do risco de quedas, principalmente entre idosos, além de episódios de comportamentos automáticos durante o sono, dos quais a pessoa pode não se lembrar depois.
Por isso, a interrupção desses medicamentos deve sempre ocorrer com orientação médica.
Tratamento deve considerar a realidade do paciente
Os pesquisadores ressaltam que a insônia não pode ser tratada de forma isolada. Fatores como desemprego, violência, insegurança alimentar, moradia inadequada, jornadas excessivas de trabalho e estresse constante interferem diretamente na qualidade do sono e precisam ser considerados durante o atendimento.
Na rede pública de saúde, o tratamento costuma envolver equipes multiprofissionais, com médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e assistentes sociais. Quando indicados, os medicamentos podem ser utilizados para aliviar os sintomas, mas preferencialmente por tempo limitado, sempre associados a acompanhamento especializado e, quando possível, às terapias comportamentais.
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