Economia • 10:51h • 17 de agosto de 2026
Brasileiros deixam bilhões de milhas pelo caminho ao perder prazos e fazer resgates pouco vantajosos
Estimativas do setor apontam que cerca de 60 bilhões de milhas expiram anualmente no país; falta de acompanhamento e escolhas de baixo retorno ajudam a explicar o desperdício
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Aeroporto de Porto/Âncora1®
O crescimento dos programas de fidelidade criou um patrimônio que muitos brasileiros acumulam sem perceber o valor que possui. Estimativas do setor indicam que cerca de 60 bilhões de milhas expiram todos os anos no Brasil, enquanto um em cada três resgates seria destinado à troca por eletrodomésticos e utensílios de menor valor. Entre pontos esquecidos, prazos vencidos e escolhas pouco vantajosas, parte do benefício conquistado pelo consumidor acaba retornando aos programas sem proporcionar uma contrapartida proporcional ao saldo acumulado.
Um dos problemas está na percepção de que pontos e milhas são apenas brindes recebidos pelo uso do cartão de crédito. Embora não devam ser confundidos com dinheiro disponível em conta, eles possuem valor dentro dos programas e podem representar economia quando utilizados de maneira planejada.
Também existe o risco de perda de poder de compra. Manter grandes saldos por longos períodos não significa necessariamente preservar seu valor, já que programas podem alterar tabelas e aumentar a quantidade de pontos necessária para determinados resgates. Acompanhar validade, regras e possibilidades de utilização passa, portanto, a fazer diferença no retorno obtido.
Nem todo resgate oferece o mesmo retorno
Trocar pontos por um produto disponível no catálogo não significa necessariamente fazer um bom negócio. O consumidor precisa observar quantas milhas serão utilizadas e comparar o benefício recebido com outras possibilidades disponíveis dentro do programa.
A mesma lógica vale para passagens aéreas. A ideia popular de que viajar com milhas significa conseguir uma “viagem grátis” desconsidera que aquele saldo foi formado anteriormente por gastos, relacionamento com instituições financeiras, compras bonificadas ou outras estratégias de acúmulo.
Por isso, a decisão não começa apenas no momento da emissão da passagem. Saber onde os pontos estão concentrados, quando expiram e qual utilização oferece retorno mais interessante ajuda a evitar que milhares de unidades acumuladas simplesmente desapareçam.
Mercado de milhas começa a ganhar formação especializada
A expansão desse ecossistema também abriu espaço para serviços e formação profissional. O engenheiro de produção Aloysio Rebello, formado pela UFMG e com MBA pela USP, fundou a Go Miles Club com uma proposta voltada à educação e à gestão estratégica de programas de fidelidade.
A empresa desenvolveu, em parceria com a Cogna e as Faculdades Anhanguera, um MBA em Gestão Estratégica de Milhas Aéreas reconhecido pelo MEC. A iniciativa leva para o ambiente de educação formal um mercado que durante anos esteve associado principalmente a conteúdos dispersos sobre acúmulo e emissão de passagens.
Além da área educacional, a empresa informa utilizar tecnologia própria e inteligência artificial em um serviço de gestão de milhas direcionado a executivos e clientes de alta renda, acompanhando desde o acúmulo até as emissões.
Gestão busca transformar pontos esquecidos em economia
Segundo dados fornecidos pela Go Miles Club, alunos do MBA e integrantes de sua comunidade de educação contínua somaram mais de R$ 20 milhões em faturamento nos últimos dois anos. A empresa também afirma que clientes de seu serviço de gestão acumularam mais de R$ 12 milhões em economia, com retorno médio equivalente a 2,5 vezes o valor investido na consultoria.
Os números são apresentados pela própria companhia e refletem resultados de sua base de alunos e clientes, não uma estimativa de retorno garantido para qualquer consumidor. O aproveitamento das milhas depende de fatores como quantidade acumulada, programa utilizado, disponibilidade, destino pretendido e condições de cada resgate.
Para Rebello, tratar o saldo com planejamento é fundamental para evitar desperdícios. “Milha é um ativo com valor de mercado e precisa ser tratada com a mesma seriedade que qualquer patrimônio. Nossa missão é ensinar e entregar soluções para que as pessoas viajem mais e melhor, sempre com responsabilidade e estratégia”, afirma.
Prazo de validade é o primeiro ponto para quem tem milhas acumuladas
Para quem participa de programas de fidelidade, o cuidado mais básico é saber quantos pontos possui e quando eles vencem. A partir daí, é possível comparar as opções oferecidas antes de transferir, trocar produtos ou emitir passagens.
Também é necessário observar as condições específicas de cada programa, já que validade, regras de transferência, promoções e quantidade exigida para resgates podem variar.
Em um mercado que movimenta bilhões de pontos, o desperdício não ocorre somente quando as milhas expiram. Utilizar um grande saldo sem comparar alternativas também pode reduzir o benefício obtido. Mais do que acumular, portanto, o desafio está em saber o que fazer com os pontos antes que eles percam valor ou desapareçam da conta.
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