Variedades • 17:25h • 31 de outubro de 2026
As eleições passam. A vida continua. E o diálogo também precisa continuar
Entre divergências políticas, amizades interrompidas e desafios cotidianos, o período pós-eleitoral abre espaço para repensar relações e lembrar que a vida continua além das urnas
Coluna | Ana Clara Vasques Gimenez | Foto: Arquivo/Âncora1
A democracia faz barulho. Tem debate, discordância, proposta, crítica e aquela conversa no almoço de domingo que, de repente, muda o clima da mesa. Conviver com opiniões diferentes nem sempre é confortável. Ainda assim, essa convivência é fundamental para construirmos um país capaz de reconhecer seus problemas e discutir caminhos para enfrentá-los.
A cientista política Chantal Mouffe nos ajuda a compreender essa dinâmica ao falar em agonismo: uma disputa entre adversários que reconhecem a legitimidade uns dos outros, mesmo quando defendem projetos profundamente diferentes. Nessa perspectiva, as divergências não precisam desaparecer nem terminar em consenso. Precisam encontrar formas democráticas de expressão, sem transformar quem pensa diferente em alguém a ser eliminado do debate.
Isso exige disposição para ouvir, argumentar e admitir que nenhuma pessoa, partido ou governo tem todas as respostas. Ideias diferentes podem revelar necessidades ignoradas, corrigir propostas e ampliar as possibilidades de solução para problemas comuns. Para isso, precisamos trocar argumentos, em vez de apenas distribuir rótulos.
Uma sociedade ideal, livre de conflitos e contradições, dificilmente estará à nossa espera depois da próxima eleição. Temos histórias, interesses, condições de vida e prioridades diferentes. Reconhecer essa complexidade, porém, não significa aceitar a desigualdade como destino. Garantir uma vida digna, com acesso à saúde, à educação, à moradia, à alimentação e a outros direitos básicos, deve orientar qualquer governante. Podemos divergir sobre os caminhos, mas precisamos cobrar resultados na vida concreta das pessoas.
Agora que passaram as eleições, também vale olhar para as relações que ficaram pelo caminho. Há alguém com quem deixamos de conversar por uma divergência política? Uma amizade que virou silêncio? Um familiar com quem toda tentativa de diálogo terminou em discussão?
Talvez seja hora de retomar alguns desses contatos. Esse cuidado já era importante antes da votação. Reaproximar-se não exige abandonar convicções, esquecer ofensas ou tolerar violência. Mas, quando há respeito possível, uma diferença política não precisa ocupar todo o espaço de uma relação. Nem todo café precisa virar um debate eleitoral.
Como pesquisadora, percebo com frequência que a vida não cabe inteiramente nos compromissos que organizamos para ela. Há momentos em que suspendo as leituras e a escrita para estar com meus avós, meus pais, meu companheiro, para cuidar, conversar ou simplesmente compartilhar o tempo. Em outros, preciso reservar mais espaço à tese de doutoramento e adiar um encontro ou uma visita.
São escolhas que nem sempre fazemos sem culpa. O equilíbrio, na prática, exige ajustes constantes. A tese precisa avançar, os vínculos precisam de presença e nós também precisamos de descanso. Enquanto decidimos como conciliar tudo isso, a vida acontece.
Talvez este seja um bom momento para retomarmos nossas rotinas e redescobrirmos nossos gostos, lembrar do que nos faz bem, reconhecer dificuldades, perceber as lacunas que precisam de atenção. Há muito a fazer para além das urnas - inclusive acompanhar os eleitos, participar das discussões públicas e cobrar o cumprimento de suas responsabilidades.
Os debates continuam e os juristas não vão parar. Os problemas das famílias, do trabalho e da comunidade continuam exigindo respostas, pois a vida não entra em recesso depois da eleição e atravessá-la sozinho pode ser bastante árduo.
Somos seres sociais: precisamos de vínculos, de cuidado e de espaços em que seja possível falar e também escutar. A democracia depende dessa disposição para conviver com diferenças. Nossas relações, muitas vezes, também.
Podemos começar com uma conversa. E, dessa vez, ouvir até o fim, em um café normal.
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