Saúde • 08:43h • 01 de setembro de 2026
Antibiótico no lixo ou na pia pode alimentar um problema que volta para todos: as superbactérias
Descarte inadequado leva resíduos de medicamentos ao ambiente, favorece a resistência bacteriana e pode contribuir para que tratamentos importantes percam eficácia
Da Redação | Com informações da CFF | Foto: Divulgação
Um antibiótico que sobrou do tratamento não deve terminar no lixo comum, na pia ou no vaso sanitário. Quando esses medicamentos chegam ao ambiente, mesmo em baixas concentrações, podem favorecer a seleção de bactérias resistentes, ampliando um problema que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica entre as dez maiores ameaças à saúde pública global.
O caminho pode começar dentro de casa. Resíduos de medicamentos descartados pelo esgoto seguem pelas redes de coleta e podem alcançar estações de tratamento que não foram projetadas para remover completamente substâncias farmacêuticas. Em rios, córregos e solos, a exposição das bactérias aos antibióticos cria uma pressão seletiva: microrganismos resistentes sobrevivem e podem transmitir características de resistência.
A dimensão do problema já é expressiva. Estimativas referentes a 2019 apontam que 1,27 milhão de mortes no mundo foram diretamente atribuídas a infecções bacterianas resistentes a medicamentos.
O remédio descartado deixa de ser apenas uma sobra
O risco ambiental ajuda a explicar por que guardar antibióticos para uma doença futura ou simplesmente jogá-los fora não é uma solução adequada. Resíduos desses medicamentos já foram detectados em águas superficiais, sistemas de tratamento e até em alimentos irrigados com água contaminada.
Além do descarte doméstico, outras rotas contribuem para a presença dessas substâncias no ambiente. Relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) apontou que uma parcela significativa dos antibióticos consumidos por seres humanos e animais pode ser eliminada pela urina e pelas fezes, reforçando a relação entre saneamento, resíduos farmacêuticos e resistência antimicrobiana.
O resultado preocupa porque bactérias resistentes podem tornar infecções mais difíceis de tratar e reduzir a eficácia de antibióticos importantes. Entre os microrganismos que desafiam os serviços de saúde estão cepas resistentes de Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli.
Sobrou antibiótico. O que fazer?
A orientação é não guardar para utilizar por conta própria posteriormente e não descartar no lixo comum, pia ou vaso sanitário. Medicamentos vencidos ou em desuso devem ser encaminhados aos pontos adequados de recebimento, como farmácias participantes do sistema de coleta.
O farmacêutico tem papel importante nesse processo. Além de orientar sobre o uso correto do antibiótico, o profissional pode esclarecer como armazenar e dar destinação adequada ao medicamento que não será mais utilizado.
“O paciente sai da farmácia com a caixa do antibiótico e a promessa de tomar até o fim. Mas ninguém pergunta o que ele vai fazer com as sobras, e ele também não pergunta. O descarte virou um ponto cego do tratamento”, afirma o farmacêutico clínico e consultor em saúde pública João Paulo Nogueira.
Uso correto também ajuda a combater a resistência
A prevenção não começa somente quando sobra medicamento. Completar o tratamento conforme a prescrição, evitar o uso inadequado de antibióticos e receber orientação profissional também contribuem para reduzir desperdícios e o avanço da resistência bacteriana.
Nas farmácias, unidades de saúde e hospitais, farmacêuticos participam de diferentes etapas desse cuidado, desde a orientação ao paciente e recebimento de medicamentos em desuso até a gestão da antibioticoterapia no ambiente hospitalar.
O comprimido que parece uma pequena sobra dentro de uma gaveta, portanto, exige destinação correta. Devolvê-lo a um ponto apropriado evita que o medicamento seja reutilizado indevidamente ou siga para o ambiente, onde pode contribuir para um dos maiores desafios atuais da saúde pública.
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